segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

do feminino

Ensaiamos o grito, e esperamos. Abrimos a porta de alma vesga, adoçada pelo tempero cálido do vento instalado. Do nosso refúgio vemos o fogo que consome o mundo, casa a casa. Hesitamos expor a nossa angústia. Todos nos ignoram. Somos fugitivas, marcadas pelo tempo e pela cor da raiva alheia.
De mão em mão passamos o que recolhemos nas horas fartas da civilização. As crianças olham-nos desconfiadas. Daqui controlamos possíveis tentações que o poder instalado fez passar entre os demais. O contágio alastrou-se, imparável.
Temos consciência de que a solidariedade grupal nos há-de devolver o bem que tem faltado. Somos de outros mares, inimigas invisíveis de quem quer combater e não consegue. Soltamos amarras do porto feito partida, acenamos à vista de quem não nos quer ver regressar. A tarde viajada trará memórias desabridas, honras mal paridas, mulheres indesejadas. Somos filhas do quadro pintado, na frente de quem nos leu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

era uma vez

perto demais

E podemos ser tão felizes juntos!
Parece que ainda o ouço, contigo mesmo aqui a meu lado.
Tomo por boa a convicção de que acreditavas um futuro brilhante, a dois – venha lá quem vier dizer-me o contrário.

Já reparaste o quão bonita é a nossa casa?
Vim de lá agora mesmo. As cortinas da sala ficaram lindas – a Ti Justina sempre teve mãos de artesã.
Não vejo que te sintas melindrado, mas troquei o modelo da cama de casal do nosso quarto. Como te vi calado, preferi a variante sem cabeceira, aquela cor de Pinho. A serenidade da tua expressão deixa-me tranquila pela escolha.

Olha só, Querido, os papás não te queriam ver nesse estado, mas estão aqui para me apoiar. Sempre se preocuparam com o nosso bem-estar!
Perpetuaram-te a memória: espalharam fotografias tuas pela casa, estás em todas sempre de sorriso aberto, que lindo ficas tu de cara alegre.

Prepara-te, o senhor padre já lá vem. Tanta gente no adro da igreja. Deixa-me enxaguar as lágrimas antes de te ver partir de vez. Vim de branco como se… por não te querer saber triste. Éramos noivos antes do…, desculpa. Ainda assim, seremos um casal perfeito, mesmo depois de te deitarem à terra. De aliança no dedo.

Adeus, Amor. Que a eternidade não te pese.
E podemos ser tão felizes juntos!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

como o vazio

requiem

-Consegue lembrar-se de pormenores?

- Pormenores?

- Sim, descreva-me a cena antes e depois do “acidente”.

- Doutor, sei que estávamos no carro, parados na Praça, a falar normalmente… depois comecei a sentir uma forte pressão na cabeça, um zumbido forte nos ouvidos, a seguir a explosão…

- Estávamos? Explosão?

-Sim, a pessoa morta ao meu lado, tudo a andar à roda…

-Morta?

-Sim, a Praça em chamas, eu sem sentir nada, a bater a porta do carro, de volta a casa. Sem acudir a minha companheira, ali mesmo, fulminada ao meu lado. E tudo a desmoronar-se em redor e eu a passar por toda aquela catástrofe, coração de pedra, alheio à desgraça…

- Senhor Fernando, pare por agora, se faz favor.

- Repare, nada do que me conta faz grande sentido. Caso não saiba, apareceu-nos aqui à porta do hospital como outro qualquer paciente, queixava-se de uma forte enxaqueca, pedia só que lhe receitassem algo para suportar as dores, nada mais. O curioso foi começar por trocar a sua identidade, os seus dados pessoais: morada, estado civil… daí esta consulta.

- Quer dizer que não se passou o que se passou?

- Como?

- Se a minha companheira está viva… se a Praça não veio abaixo.

- Senhor Fernando, o que se passou consigo ao certo, não sei. Posso sim afirmar que esteve envolvido num processo traumático, caracterizado por uma perda parcial ou total de memória: uma espécie de negação, não é quem afirma que é, não mora onde diz que mora… simplificando, toma-se por alguém que não é a pessoa com quem estou a falar. Faço-me entender?

- Hum, nem por isso.
Diga-me, quem sou eu, antes e depois desse dito “processo traumático”?

- Homem, isso cabe-lhe a si desvendar. Dou-lhe um conselho, depois de sair do hospital, vá directo a casa, siga os caminhos que lhe são familiares, puxe pela memória, tente encontrar a dita Praça, a sua casa. De seguida contacte quem lhe é próximo, vá à sua agenda e tente telefonar a cada uma das pessoas da lista, fale com elas até ao limite do tolerável: obtenha histórias comuns de vida, detalhes - tente rescrever o seu passado, as afinidades com quem o rodeia. Depois será fácil confirmar a existência real dessa referida companheira, se para si o assunto é assim tão importante. Não se esqueça, todos esses elementos serão essenciais para a reconstrução da sua personalidade.
Finalmente escreva, escreva tudo quanto lhe passe pela cabeça para interiorizar a sua nova biografia. E por que não começar por esta nossa conversa?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

da mentira

Ausentei-me há muito. Não sinto falta da Ribeira das Naus, tão pouco dos sons do Tejo. Hoje as gaivotas recordam-me dias de tempestade. Estou em terra firme, a brisa marítima, minha confidente passou a miragem.
Escrevo-te como se vivesse no exílio: mas não, parti por vontade própria. As cores aqui são outras, as pessoas falam mais alto, projectam a voz desgarrada a curta distância. Habituei-me depressa ao ritmo desta cidade. A torrente de cheiros novos, alguns nauseabundos, contaminam-me todo o tempo. Quase sou um deles. Ainda visto os trapos velhos para te recordar, deliro nos gestos de ontem para adiar a personalidade do hoje.
Enfraqueço minuto a minuto, o sangue preguiça dentro de mim, assombra-me o infortúnio. Ouço os teus soluços, longe muito longe, sumidos. Dobram-se-me os joelhos, vergo-me perante o Poder divino, no quente da pedra escura, como se Tu te transformasses num caminho além do que é visível, para este ainda teu comum mortal.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

sugestão do primo Miguel

bichano

O meu gato segue à risca as minhas instruções e logo de manhã, depois de eu sair de casa levanta a mesa do pequeno-almoço e aspira o chão da sala;
ao almoço envio-lhe um sms com a lista de produtos para trazer do supermercado, ele solicito, cumpre à risca cada um dos items e traz põe sempre no cestinho de compras produtos que tenham por garantia a indicação de “melhor escolha”, difundida mensalmente pela revista da defesa do consumidor;
pela tarde, recebo eu uma mensagem, com a pergunta: “e para a merenda, o que vai ser?”; ao chegar a casa degusto um magnífico pão com fiambre e um leite morno, com chocolate, de fazer inveja à leitaria UCAL;
ao cair da tarde, enquanto leio o jornal e as crónicas do António Lobo Antunes refastelado no sofá, o meu gato sai de casa a caminho do jardim-escola para apanhar os meus filhos menores;
já de noite, faço eu o trabalho de casa: cozinho, lavo a louça, adormeço a criançada e ponho a máquina da roupa a lavar. Enquanto tudo isto dura, o gato estende-se principescamente sobre o edredão da minha cama, com propósitos solidários, presumo;
de madrugada mergulho no sono, enroscado no meu felino de trazer por casa.

p.s. – o meu gato não é assim, nem poderia ser. Se assim fosse não estaria a falar de um gato mas de um pau mandado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Salmo

E do estúdio vi o mundo.
Foi-me possível aferir o jorrar do sangue nas veias da cidade. Marcha matutina de todos quantos se afundavam num momento de intenso labor; regresso descontraído à casa que se abre. Tudo registei.
A natureza reassume o controlo absoluto, desfere no Homem golpes misericordiosos de requintada malvadez. Abominável realidade de tom carmim, fétida e putrefacta. Seres pequenos e rastejantes, agora desprovidos de poder.
Murcha o trevo da sorte, caem Deuses das paredes forradas a talha dourada. Não há nada nem ninguém que Lhes valha.
Eu, pintor e carrasco, supremo criador do Universo, me confesso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

da alma

Ia jurar que nos últimos dias o meu coração deixou de bater.
Bato no peito e não obtenho resposta.
Um músculo forte e pára assim de um momento para o outro?
Sou jovem, tenho uma vida pela frente. É certo que não sou casado, nem tenho filhos, mas que raio, quero
continuar a andar por aí!

(Alguém me ouve?)

Se tivesse descontente já teria posto um balázio na cabeça ou uma corda ao pescoço. Mas não o fiz.
À Horas a fio nisto. Sem resposta.
Já quase não ouço. Nem risadas, nem conversas parvas à minha volta. E o barulho dos carros… onde se meteram todos?

(Brincar, tudo bem, mas assim não vale. É estúpido)

A luz?, simplesmente não vejo.
Maldita sina a minha. Se me cansar de vez disto, como é que encontro a saída, conseguem-me explicar?
Bem, sempre vos digo, deitarem-me sobre uma manta acolchoada áspera, por debaixo de uma tábua rasa é de muito mau gosto!

(Por amor de deus)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Essencialmente Pessoa

Colecção i

Exclusivo: Fernando Pessoa essencial todas as sextas-feiras, grátis, com o i

A partir de 30 de Outubro, e durante 10 semanas, o i oferece-lhe o essencial de um dos grandes génios da literatura portuguesa.


 
Mensagem (Fernando Pessoa): 30 de Outubro



O Banqueiro Anarquista (Fernando Pessoa): 6 de Novembro



O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro): 13 de Novembro



A Essência do Comércio (Fernando Pessoa): 20 de Novembro



Soneto já Antigo e outros Poemas (Álvaro de Campos): 27 de Novembro



Sobre a República (Fernando Pessoa): 4 de Dezembro



Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria e outras Odes: 11 de Dezembro



Aviso por Causa da Moral e outros Textos (Álvaro de Campos): 18 de Dezembro



Liberdade e outros Poemas Ortónimos (Fernando Pessoa): 24 de Dezembro



Páginas do Livro do Desassossego (Bernardo Soares): 31 de Dezembro


FONTE: http://www.ionline.pt/conteudo/29696-exclusivo-fernando-pessoa-essencial-todas-as-sextas-feiras-gratis-com-o-i

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

do criador

Atirou-se ao mar e deixou que as águas cedessem à medida do corpo. Como que por engano, veio à tona. A tentativa para dar de caras com a morte tornou-o ridículo. Do céu adivinhou o riso incontido de senhor deus.

- De que te ris, alteza?
- Do teu falhanço monumental, bobo.

Alma celeste, bonecreiro bafiento de barbas longas e amareladas, soltas Vivas pelo som do estéril fatalismo de um peso pluma, pensou.

-Faltaste à chamada na pia baptismal, homem de deus.
-Vim à procura do mergulho fatal, divino.
-Encarnaste na personagem errada, criatura.
-Limitei-me a seguir o que estava no guião, mestre.

-Eu te dei a vida, eu te embrulho na morte, ser infame.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

de ontem

Fiz-me ao caminho, rumei a Norte. Para trás deixei tudo, aqueles que amava, que detestava, que me eram indiferentes. Ouvi aqui e ali que era doido. “Deixas assim o sítio que te viu nascer?”, “ Mas, e o amor? o nosso amor…”. Nada lhes respondi. Durante anos, olhei para o chão, agora feito de granito, escuro, mesmo em dias em que a luz toma conta dos dias. Sempre na sombra de outros, à espera de acordar de novo, fazer de conta que os caminhos incertos eram os mesmos de outrora, as plantas, os turistas… Com o corpo pesado, a mente turva de ideias vazia, vagueio em terra alheia.

Mudar custa sempre, ainda que entre mim e o passado presente, haja somente a distância de um braço de rio.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

os deuses têm pés de barro

a ponte

Esforcei-me, até ao limite. Não pude dar mais. Esticavas a corda, eu arrastava-te de volta, naufrago à deriva. Doeu um pouco. O efeito do teu cigarro entorpecia a incompreensão, de quem perde a meio do jogo. A lembrança das noites de álcool a mais, cravava a distancia que se anunciava. Os astros perdiam o rumo aos signatários.
Levanta o rosto, caminha rua fora, sóbria, sedenta por quem te ame. Transfigura a imagem de menina traquina que te persegue. Prepara de novo o leito comum. Esforça-te para que desta vez as cores ajudem a felicidade a instalar-se. A chuva trará alguém por companhia. Um missionário das noites longas, partilhadas, ensopadas na alegria breve, que um dia também nos guiou.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

prémio e tu devias ser metido num contentor e deportado para bem longe (sabes uma coisa, cheiras mal!!!)

«A vitória foi bem entregue. Desconfio que o dr.António Costa descobriu o caminho marítimo para a Índia e, no mínimo, deve ser o presidente da capital dos contentores e das bicicletas. Estou muito satisfeito denascer em Lisboa,mas gostava de ter nascido em Bombaim» referiu João Braga a comentar a vitória do socialista à Câmara de Lisboa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

novembro que se avizinha

Nasci afogado nas lágrimas incessantes da minha mãe. O pulsar do coração não obedecia ao sopro da vida. Os pulmões respondiam a espaços. O ventre fechado não ousava abrir de novo portas. Cá fora tudo fere, deposita-se o tempo na pele enrugada, do embrião sem memória.
Passaram-se anos. Só no novelo enrolado das fotografias consigo descortinar um laivo de agitação desse inverno. Revela-se a realidade estática do meu corpo. Constante agonia de palavras vãs, risco surdo de um diário mínimo por escrever. Movimentos presos, indeléveis, sacudidos pela perene brevidade de um sopro. Mais não sou que a fuga ao passado fracassado, construção material do amor consumado. Eu, como os outros, como vós.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

o que eu ando a ler

Tudo dentro de tudo

2666
Autor: Roberto Bolaño
Título original: 2666
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 1030
ISBN: 978-972-564-816-2
Ano de publicação: 2009

Há romances que se preocupam em fixar uma parte da realidade: um certo tempo histórico, uma certa geografia, o equilíbrio ou a tragédia de certas vidas. E depois há romances – muito poucos – que ambicionam abarcar o mundo inteiro. Não lhes interessa reflectir a realidade, mas antes criá-la de novo, reinventá-la, explorar-lhe os limites. São livros totais, que se deixam inebriar pela própria desmesura, sem medo do falhanço ou dos abismos para onde a sua ambição os pode arrastar. Em 2666, um professor de filosofia chamado Amalfitano faz o elogio destas grandes obras literárias «imperfeitas», as que «abrem caminho no desconhecido», enfrentando «aquilo que nos atemoriza a todos, esse aquilo que nos acobarda e verga». Obras como Moby Dick, O Processo, Bouvard e Pécuchet. Ou, acrescento eu, como este gigantesco, terrível e belíssimo romance de Roberto Bolaño, um prodígio narrativo que acompanha, para além da crise existencial de Amalfitano, as deambulações de várias dezenas de outras personagens, igualmente perdidas e desarmantes.
Em 2666, Bolaño quis testar a infinita elasticidade do género romanesco. Até onde se pode chegar com uma ficção? Resposta: até onde se quiser. Ou melhor, até onde se for capaz de ir. A fronteira, se existe, é a própria escrita e Bolaño consegue empurrá-la sempre mais para diante. As histórias multiplicam-se, nascem umas das outras, proliferam como caixas chinesas: do submundo criminal mexicano às batalhas na frente Leste da II Grande Guerra, de Bornéu a Veneza, da crucificação de um general romeno (num castelo da Transilvânia) aos sacrifícios humanos dos astecas, de um combate de boxe demasiado rápido aos intermináveis espancamentos entre reclusos de uma prisão de alta segurança, das discussões eruditas em congressos sobre literatura alemã contemporânea à melancolia das profundezas oceânicas. Eis um labirinto com muitas entradas e nenhuma saída. Um buraco negro que devora qualquer matéria ficcionável. Um lugar onde cabe, literalmente, «tudo dentro de tudo».
Embora esteja dividido em cinco partes, que funcionam como cinco livros autónomos, pode dizer-se que o centro gravítico de 2666 é a imaginária cidade de Santa Teresa, no deserto de Sonora (norte do México, perto da fronteira com o Arizona), onde vão aparecendo, entre 1993 e 1997, centenas de cadáveres de mulheres pobres – prostitutas, empregadas de mesa, operárias fabris –, assassinadas quase sempre após tortura e violação sexual, sem que as autoridades policiais, incompetentes e misóginas, consigam deslindar os crimes. É a Santa Teresa que chegam, na primeira parte, três críticos literários: Jean-Claude Pelletier, Manuel Espinoza e Liz Norton, académicos unidos a um quarto crítico (Piero Morini) pela geometria instável de um quadrado amoroso e pela dedicação devota à obra de Benno von Archimboldi – escritor «prussiano» de culto, cioso da sua invisibilidade, que viajou para aquela cidade violenta não se sabe porquê. E é em Santa Teresa que alguns dos múltiplos fios narrativos deste livro se atam, sem nunca oferecerem ao leitor – hipnotizado desde as primeiras páginas pela riqueza estilística da prosa de Bolaño, pela energia pura da sua linguagem – o alívio de uma explicação para o Mal que emerge de todo o lado, como que saído de um «poço negro».
Enquanto o conduzem às cegas pelo bas-fond de Santa Teresa, Oscar Fate, o repórter afro-americano que é protagonista da terceira parte, pondera apanhar o primeiro avião para Nova Iorque, «onde tudo voltaria a ter a consistência da realidade». Isto é, da realidade real. Faz sentido. Porque a realidade de 2666 é a outra, a que perde os seus contornos, «como se a passagem do tempo exercesse um efeito de porosidade nas coisas», a realidade da estranheza e do «pesadelo flutuante», a realidade incerta, sempre a oscilar entre a vigília e o sonho, a verdade e o simulacro, a lucidez e a loucura.

Avaliação: 10/10

fonte: http://bibliotecariodebabel.com

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

doces lábios

da civilização

Debruçamo-nos sobre o mundo. É incrível que da nossa varanda possamos ver a terra girar. O frenesim das gentes, o andar para frente e para trás. Saboreamos esses momentos como uma breve conjugação daquilo que tem de ser feito. Continuamos ali, presos nos braços um do outro. Guiamo-nos através do olhar luzidio ou baço. A construção da paisagem envolvente é feita por mim e por ti, riscos tortos e letras escarlates transpostas na visão partilhada.

Dia-a-dia fazemos as malas e partimos, cada um com a missão de completar a missão do outro, sem traições ou protagonismos torpes. Da aurora ao ocaso solar vagueamos no mapa mundi, damos vida ao que for preciso, no limite deixamos um rasto de destruição. Às vezes somos cruéis.

Lavamos os pecados na consumação do amor, só nosso. Não sobra espaço para mais ninguém. Repousamos da luta, fechamos a existência do ruído. O despertar conjunto há-de chegar, até à hora do definitivo adeus.

Adeus.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Livros na Sábado

Vai ter início no próximo dia 24 de Setembro mais uma colecção com a revista Sábado, mas desta vez a 1,5€ cada livro. Aqui fica a lista de livros com as respectivas datas:

24 Setembro - O Nome da Rosa, de Umberto Eco

1 Outubro - A Malinche, de Laura Esquivel

8 Outubro - O Danúbio, de Claudio Magris

15 Outubro - A Conspiração Contra a América, de Philip Roth

22 Outubro - Uma Questão Pessoal, de Kenzaburo Oe

29 Outubro - Justine, de Lawrence Durrell

5 Novembro - Tim, de Colleen McCullough

12 Novembro - O Amante do Vulcão, de Susan Sontag

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

adivinha quem vem para jantar

Estico-me, tenso, no chão duro e frio. Tento que a dor me passe por cima, sem tocar. Estou assim há horas. Exercito o ridículo da pose. Um palhaço vestido dos pés à cabeça, nariz proeminente, sapato de verniz de tamanho gigante. Se continuar a chorar a maquilhagem vai deixar de fazer sentido. Uma cara borratada, feia e rígida, nada dada a aplausos. Chega-me aos ouvidos o riso fácil das crianças, gargalhadas estridentes de adultos, a voz colocada do apresentador de serviço. Tenho um cartaz de espectáculo em nome próprio. Retrato fiel, convidativo.


Câmara, acção. Registam todos os meus gestos, um por um. Belo anúncio. A cidade ficou convencida da minha arte.

Agora que esperem por mim, desistam, batam com a porta, reclamem o dinheiro de volta. Não me vou levantar. Tirem-me da equipa. Daqui só saio para o Hospital. O Doutor há-de prescrever uma boa dose de comprimidos, coloridos, desejosos de fazerem alguém feliz. Mais uns tempos e serei outro: vivo e dinâmico, a passear pelas ruas de mão dada com a família. Finjo que quero dar o que não tenho, bebo a felicidade alheia no engano do dia-a-dia. Dói-me tudo por dentro, desfeito e descomposto, impróprio para consumo.

Tenso, no chão duro e frio, vestido de palhaço.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Teatro Ciência Teatro

Um ego é um ego é um ego é um ego

NOTAS DE ENSAIO

1. Cheguei a dizer que Ego "começa por ser uma peça teórica sobre o cérebro para acabar numa angustiante viagem emotiva". Isto é mentira: o cérebro é que é uma angustiante viagem emotiva. Há uma cara, fachada sobre uma caixa que encerra uma massa de minhocas, miolo de noz electroquímico e etc - isto diz mais à divulgação científica. Mas depois o interior dessa estrutura processa imagens e experiências, e isto começa a interessar ao teatro - curto e grosso: uma peça sobre o funcionamento do cérebro não interessa, uma peça dentro da cabeça interessa muito. Acho que o teatro, como linguagem, não é partidário do feixe, é partidário do ego, um espectáculo é uma "ostra central de percepção" (como Virgina Woolf diz do 'eu').

2. O teleporte (ou será teletransporte?) é uma experiência imaginada, gosto das improvisações 'tecnológicas' dos actores (um deles fala de ficção científica de leste e agrada-me a ideia de estarmos mais perto da estação Solaris do que da nave Enterprise - salvaguardadas as distâncias, que não quero invocar o nome de Tarkovski em vão!).
O teleporte inicial é um pretexto ficcional; avançando mais, a peça torna-se um thriller neurológico. A experiência de Alex é do domínio do (plano) subjectivo; já o glioma borboleta dela é uma imagem real - ele fala sobre o cérebro, ela tem um tumor na cabeça (cabeça e cérebro, mais uma vez, não são só uma diferença semântica).

3. Depois de começar a ler os neurologistas da praxe (Sacks, Damásio) encontrei Jonah Leher (Proust era um Neurocientista) e fico exultante - confirmo com ele a intuição de que a arte antecipa a ciência, fico corporativamente descansado e acabo com ele a citar Gertrud Stein: "Tive tantadificuldade para compreender as condições a partir dos compêndios que senti um processo clarificrador (clarificador) (...) era muito necessário. Não que XXXXX os livros nem todos dizem a verdade com eu a conheço mas que dizem tanto XXXXX que uma pessoa fica confusa".
As rasuras e os erros ortográficos são mesmo assim, a carta foi enviada a um professor da faculdade de Medicina. Ela dizia que os desenhos, contrariamente aos compêndios, "limpamomatagal e deixam um caminho claro" - eu gostava de desenhar a peça como uma atlas de anatomia da Renascença (em imagens de baixa resolução mas elevado grau de beleza)

4. O neurologista Paul Broks (co-autor especialista) abre Into the Silent Land, livro de inspiração para Ego, com um poema de Emily Dickinson para o fechar com um poema de Christina Rossetti - esta peça será um poema neurológico?

João Pedro Vaz (3 Agosto 2009)
http://sobreoego.blogspot.com/

Berg e Clarissa

- Ainda aqui fora?
- Ainda aqui!
- Não vais dormir?
- Por agora não!
- Que procuras?
- Isso não interessa.
- És minha amiga?
- Não posso ter amigos.
- Não gostas de ninguém?
- Não sei o que é gostar.

Enlaçamos as mãos, contranatura. Eu hesitante, ele convicto que teria companhia por uma noite. Abriu a porta do prédio, segui-lhe os passos (porquê?); subimos as escadas, a meio parou, fixou em mim o olhar, declinei, penso que declinei, com um manear de cabeça qualquer intenção da parte dele. Entrou em casa, parei na soleira da porta, estarrecida.

- Não entras?
- Não!
- Entra.
- Não.
- Não te apetece?
- Não posso.

Arrastou-me para dentro, resisti quanto pude, depois os músculos cederam. Não podia mais. As náuseas, as palpitações no coração. «Socorro». O sangue jorrou-me por todos os poros. Pensei que a minha vida acabasse ali, me transformasse num animal acossado, abatido pelo silêncio do companheiro de circunstância. Sem forças, entre o desmaio iminente ouvi um quase sumido «entra, podes entrar».

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

lição de vida

ancorar: colher flores

Inspiro profundamente. O teu cheiro libertava-se do lençol como se ali estivesses, adormecida, enroscada em mim. Nunca durmo quando o fazes. A vigilância permanente das noites alimentam-me o amor, disparam a adrenalina do que se vive lá fora.
Despertamos juntos, murmuras palavras vagamente familiares: sei, soletras o meu nome sílaba a sílaba, completas o puzzle. A adivinha da manhã começou, O-QUE-VAMOS- FAZER-MAIS-LOGO? De seguida abraças-me, segredas-me os sons do dia que aí vem.
Cai a noite, estamos entregues aos sentidos de um amor desejado. Juntamos os corpos na intimidade, os focos de luz disputam connosco o brilho das estrelas.

Amanhã cedo levantar-me-ei de novo sem ter pregado olho. Só o rasto do meu caos te conduzirá às memórias frescas, ainda e sempre vivas.