segunda-feira, 28 de setembro de 2009

doces lábios

da civilização

Debruçamo-nos sobre o mundo. É incrível que da nossa varanda possamos ver a terra girar. O frenesim das gentes, o andar para frente e para trás. Saboreamos esses momentos como uma breve conjugação daquilo que tem de ser feito. Continuamos ali, presos nos braços um do outro. Guiamo-nos através do olhar luzidio ou baço. A construção da paisagem envolvente é feita por mim e por ti, riscos tortos e letras escarlates transpostas na visão partilhada.

Dia-a-dia fazemos as malas e partimos, cada um com a missão de completar a missão do outro, sem traições ou protagonismos torpes. Da aurora ao ocaso solar vagueamos no mapa mundi, damos vida ao que for preciso, no limite deixamos um rasto de destruição. Às vezes somos cruéis.

Lavamos os pecados na consumação do amor, só nosso. Não sobra espaço para mais ninguém. Repousamos da luta, fechamos a existência do ruído. O despertar conjunto há-de chegar, até à hora do definitivo adeus.

Adeus.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Livros na Sábado

Vai ter início no próximo dia 24 de Setembro mais uma colecção com a revista Sábado, mas desta vez a 1,5€ cada livro. Aqui fica a lista de livros com as respectivas datas:

24 Setembro - O Nome da Rosa, de Umberto Eco

1 Outubro - A Malinche, de Laura Esquivel

8 Outubro - O Danúbio, de Claudio Magris

15 Outubro - A Conspiração Contra a América, de Philip Roth

22 Outubro - Uma Questão Pessoal, de Kenzaburo Oe

29 Outubro - Justine, de Lawrence Durrell

5 Novembro - Tim, de Colleen McCullough

12 Novembro - O Amante do Vulcão, de Susan Sontag

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

adivinha quem vem para jantar

Estico-me, tenso, no chão duro e frio. Tento que a dor me passe por cima, sem tocar. Estou assim há horas. Exercito o ridículo da pose. Um palhaço vestido dos pés à cabeça, nariz proeminente, sapato de verniz de tamanho gigante. Se continuar a chorar a maquilhagem vai deixar de fazer sentido. Uma cara borratada, feia e rígida, nada dada a aplausos. Chega-me aos ouvidos o riso fácil das crianças, gargalhadas estridentes de adultos, a voz colocada do apresentador de serviço. Tenho um cartaz de espectáculo em nome próprio. Retrato fiel, convidativo.


Câmara, acção. Registam todos os meus gestos, um por um. Belo anúncio. A cidade ficou convencida da minha arte.

Agora que esperem por mim, desistam, batam com a porta, reclamem o dinheiro de volta. Não me vou levantar. Tirem-me da equipa. Daqui só saio para o Hospital. O Doutor há-de prescrever uma boa dose de comprimidos, coloridos, desejosos de fazerem alguém feliz. Mais uns tempos e serei outro: vivo e dinâmico, a passear pelas ruas de mão dada com a família. Finjo que quero dar o que não tenho, bebo a felicidade alheia no engano do dia-a-dia. Dói-me tudo por dentro, desfeito e descomposto, impróprio para consumo.

Tenso, no chão duro e frio, vestido de palhaço.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Teatro Ciência Teatro

Um ego é um ego é um ego é um ego

NOTAS DE ENSAIO

1. Cheguei a dizer que Ego "começa por ser uma peça teórica sobre o cérebro para acabar numa angustiante viagem emotiva". Isto é mentira: o cérebro é que é uma angustiante viagem emotiva. Há uma cara, fachada sobre uma caixa que encerra uma massa de minhocas, miolo de noz electroquímico e etc - isto diz mais à divulgação científica. Mas depois o interior dessa estrutura processa imagens e experiências, e isto começa a interessar ao teatro - curto e grosso: uma peça sobre o funcionamento do cérebro não interessa, uma peça dentro da cabeça interessa muito. Acho que o teatro, como linguagem, não é partidário do feixe, é partidário do ego, um espectáculo é uma "ostra central de percepção" (como Virgina Woolf diz do 'eu').

2. O teleporte (ou será teletransporte?) é uma experiência imaginada, gosto das improvisações 'tecnológicas' dos actores (um deles fala de ficção científica de leste e agrada-me a ideia de estarmos mais perto da estação Solaris do que da nave Enterprise - salvaguardadas as distâncias, que não quero invocar o nome de Tarkovski em vão!).
O teleporte inicial é um pretexto ficcional; avançando mais, a peça torna-se um thriller neurológico. A experiência de Alex é do domínio do (plano) subjectivo; já o glioma borboleta dela é uma imagem real - ele fala sobre o cérebro, ela tem um tumor na cabeça (cabeça e cérebro, mais uma vez, não são só uma diferença semântica).

3. Depois de começar a ler os neurologistas da praxe (Sacks, Damásio) encontrei Jonah Leher (Proust era um Neurocientista) e fico exultante - confirmo com ele a intuição de que a arte antecipa a ciência, fico corporativamente descansado e acabo com ele a citar Gertrud Stein: "Tive tantadificuldade para compreender as condições a partir dos compêndios que senti um processo clarificrador (clarificador) (...) era muito necessário. Não que XXXXX os livros nem todos dizem a verdade com eu a conheço mas que dizem tanto XXXXX que uma pessoa fica confusa".
As rasuras e os erros ortográficos são mesmo assim, a carta foi enviada a um professor da faculdade de Medicina. Ela dizia que os desenhos, contrariamente aos compêndios, "limpamomatagal e deixam um caminho claro" - eu gostava de desenhar a peça como uma atlas de anatomia da Renascença (em imagens de baixa resolução mas elevado grau de beleza)

4. O neurologista Paul Broks (co-autor especialista) abre Into the Silent Land, livro de inspiração para Ego, com um poema de Emily Dickinson para o fechar com um poema de Christina Rossetti - esta peça será um poema neurológico?

João Pedro Vaz (3 Agosto 2009)
http://sobreoego.blogspot.com/

Berg e Clarissa

- Ainda aqui fora?
- Ainda aqui!
- Não vais dormir?
- Por agora não!
- Que procuras?
- Isso não interessa.
- És minha amiga?
- Não posso ter amigos.
- Não gostas de ninguém?
- Não sei o que é gostar.

Enlaçamos as mãos, contranatura. Eu hesitante, ele convicto que teria companhia por uma noite. Abriu a porta do prédio, segui-lhe os passos (porquê?); subimos as escadas, a meio parou, fixou em mim o olhar, declinei, penso que declinei, com um manear de cabeça qualquer intenção da parte dele. Entrou em casa, parei na soleira da porta, estarrecida.

- Não entras?
- Não!
- Entra.
- Não.
- Não te apetece?
- Não posso.

Arrastou-me para dentro, resisti quanto pude, depois os músculos cederam. Não podia mais. As náuseas, as palpitações no coração. «Socorro». O sangue jorrou-me por todos os poros. Pensei que a minha vida acabasse ali, me transformasse num animal acossado, abatido pelo silêncio do companheiro de circunstância. Sem forças, entre o desmaio iminente ouvi um quase sumido «entra, podes entrar».