quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Essencialmente Pessoa

Colecção i

Exclusivo: Fernando Pessoa essencial todas as sextas-feiras, grátis, com o i

A partir de 30 de Outubro, e durante 10 semanas, o i oferece-lhe o essencial de um dos grandes génios da literatura portuguesa.


 
Mensagem (Fernando Pessoa): 30 de Outubro



O Banqueiro Anarquista (Fernando Pessoa): 6 de Novembro



O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro): 13 de Novembro



A Essência do Comércio (Fernando Pessoa): 20 de Novembro



Soneto já Antigo e outros Poemas (Álvaro de Campos): 27 de Novembro



Sobre a República (Fernando Pessoa): 4 de Dezembro



Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria e outras Odes: 11 de Dezembro



Aviso por Causa da Moral e outros Textos (Álvaro de Campos): 18 de Dezembro



Liberdade e outros Poemas Ortónimos (Fernando Pessoa): 24 de Dezembro



Páginas do Livro do Desassossego (Bernardo Soares): 31 de Dezembro


FONTE: http://www.ionline.pt/conteudo/29696-exclusivo-fernando-pessoa-essencial-todas-as-sextas-feiras-gratis-com-o-i

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

do criador

Atirou-se ao mar e deixou que as águas cedessem à medida do corpo. Como que por engano, veio à tona. A tentativa para dar de caras com a morte tornou-o ridículo. Do céu adivinhou o riso incontido de senhor deus.

- De que te ris, alteza?
- Do teu falhanço monumental, bobo.

Alma celeste, bonecreiro bafiento de barbas longas e amareladas, soltas Vivas pelo som do estéril fatalismo de um peso pluma, pensou.

-Faltaste à chamada na pia baptismal, homem de deus.
-Vim à procura do mergulho fatal, divino.
-Encarnaste na personagem errada, criatura.
-Limitei-me a seguir o que estava no guião, mestre.

-Eu te dei a vida, eu te embrulho na morte, ser infame.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

de ontem

Fiz-me ao caminho, rumei a Norte. Para trás deixei tudo, aqueles que amava, que detestava, que me eram indiferentes. Ouvi aqui e ali que era doido. “Deixas assim o sítio que te viu nascer?”, “ Mas, e o amor? o nosso amor…”. Nada lhes respondi. Durante anos, olhei para o chão, agora feito de granito, escuro, mesmo em dias em que a luz toma conta dos dias. Sempre na sombra de outros, à espera de acordar de novo, fazer de conta que os caminhos incertos eram os mesmos de outrora, as plantas, os turistas… Com o corpo pesado, a mente turva de ideias vazia, vagueio em terra alheia.

Mudar custa sempre, ainda que entre mim e o passado presente, haja somente a distância de um braço de rio.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

os deuses têm pés de barro

a ponte

Esforcei-me, até ao limite. Não pude dar mais. Esticavas a corda, eu arrastava-te de volta, naufrago à deriva. Doeu um pouco. O efeito do teu cigarro entorpecia a incompreensão, de quem perde a meio do jogo. A lembrança das noites de álcool a mais, cravava a distancia que se anunciava. Os astros perdiam o rumo aos signatários.
Levanta o rosto, caminha rua fora, sóbria, sedenta por quem te ame. Transfigura a imagem de menina traquina que te persegue. Prepara de novo o leito comum. Esforça-te para que desta vez as cores ajudem a felicidade a instalar-se. A chuva trará alguém por companhia. Um missionário das noites longas, partilhadas, ensopadas na alegria breve, que um dia também nos guiou.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

prémio e tu devias ser metido num contentor e deportado para bem longe (sabes uma coisa, cheiras mal!!!)

«A vitória foi bem entregue. Desconfio que o dr.António Costa descobriu o caminho marítimo para a Índia e, no mínimo, deve ser o presidente da capital dos contentores e das bicicletas. Estou muito satisfeito denascer em Lisboa,mas gostava de ter nascido em Bombaim» referiu João Braga a comentar a vitória do socialista à Câmara de Lisboa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

novembro que se avizinha

Nasci afogado nas lágrimas incessantes da minha mãe. O pulsar do coração não obedecia ao sopro da vida. Os pulmões respondiam a espaços. O ventre fechado não ousava abrir de novo portas. Cá fora tudo fere, deposita-se o tempo na pele enrugada, do embrião sem memória.
Passaram-se anos. Só no novelo enrolado das fotografias consigo descortinar um laivo de agitação desse inverno. Revela-se a realidade estática do meu corpo. Constante agonia de palavras vãs, risco surdo de um diário mínimo por escrever. Movimentos presos, indeléveis, sacudidos pela perene brevidade de um sopro. Mais não sou que a fuga ao passado fracassado, construção material do amor consumado. Eu, como os outros, como vós.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

o que eu ando a ler

Tudo dentro de tudo

2666
Autor: Roberto Bolaño
Título original: 2666
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 1030
ISBN: 978-972-564-816-2
Ano de publicação: 2009

Há romances que se preocupam em fixar uma parte da realidade: um certo tempo histórico, uma certa geografia, o equilíbrio ou a tragédia de certas vidas. E depois há romances – muito poucos – que ambicionam abarcar o mundo inteiro. Não lhes interessa reflectir a realidade, mas antes criá-la de novo, reinventá-la, explorar-lhe os limites. São livros totais, que se deixam inebriar pela própria desmesura, sem medo do falhanço ou dos abismos para onde a sua ambição os pode arrastar. Em 2666, um professor de filosofia chamado Amalfitano faz o elogio destas grandes obras literárias «imperfeitas», as que «abrem caminho no desconhecido», enfrentando «aquilo que nos atemoriza a todos, esse aquilo que nos acobarda e verga». Obras como Moby Dick, O Processo, Bouvard e Pécuchet. Ou, acrescento eu, como este gigantesco, terrível e belíssimo romance de Roberto Bolaño, um prodígio narrativo que acompanha, para além da crise existencial de Amalfitano, as deambulações de várias dezenas de outras personagens, igualmente perdidas e desarmantes.
Em 2666, Bolaño quis testar a infinita elasticidade do género romanesco. Até onde se pode chegar com uma ficção? Resposta: até onde se quiser. Ou melhor, até onde se for capaz de ir. A fronteira, se existe, é a própria escrita e Bolaño consegue empurrá-la sempre mais para diante. As histórias multiplicam-se, nascem umas das outras, proliferam como caixas chinesas: do submundo criminal mexicano às batalhas na frente Leste da II Grande Guerra, de Bornéu a Veneza, da crucificação de um general romeno (num castelo da Transilvânia) aos sacrifícios humanos dos astecas, de um combate de boxe demasiado rápido aos intermináveis espancamentos entre reclusos de uma prisão de alta segurança, das discussões eruditas em congressos sobre literatura alemã contemporânea à melancolia das profundezas oceânicas. Eis um labirinto com muitas entradas e nenhuma saída. Um buraco negro que devora qualquer matéria ficcionável. Um lugar onde cabe, literalmente, «tudo dentro de tudo».
Embora esteja dividido em cinco partes, que funcionam como cinco livros autónomos, pode dizer-se que o centro gravítico de 2666 é a imaginária cidade de Santa Teresa, no deserto de Sonora (norte do México, perto da fronteira com o Arizona), onde vão aparecendo, entre 1993 e 1997, centenas de cadáveres de mulheres pobres – prostitutas, empregadas de mesa, operárias fabris –, assassinadas quase sempre após tortura e violação sexual, sem que as autoridades policiais, incompetentes e misóginas, consigam deslindar os crimes. É a Santa Teresa que chegam, na primeira parte, três críticos literários: Jean-Claude Pelletier, Manuel Espinoza e Liz Norton, académicos unidos a um quarto crítico (Piero Morini) pela geometria instável de um quadrado amoroso e pela dedicação devota à obra de Benno von Archimboldi – escritor «prussiano» de culto, cioso da sua invisibilidade, que viajou para aquela cidade violenta não se sabe porquê. E é em Santa Teresa que alguns dos múltiplos fios narrativos deste livro se atam, sem nunca oferecerem ao leitor – hipnotizado desde as primeiras páginas pela riqueza estilística da prosa de Bolaño, pela energia pura da sua linguagem – o alívio de uma explicação para o Mal que emerge de todo o lado, como que saído de um «poço negro».
Enquanto o conduzem às cegas pelo bas-fond de Santa Teresa, Oscar Fate, o repórter afro-americano que é protagonista da terceira parte, pondera apanhar o primeiro avião para Nova Iorque, «onde tudo voltaria a ter a consistência da realidade». Isto é, da realidade real. Faz sentido. Porque a realidade de 2666 é a outra, a que perde os seus contornos, «como se a passagem do tempo exercesse um efeito de porosidade nas coisas», a realidade da estranheza e do «pesadelo flutuante», a realidade incerta, sempre a oscilar entre a vigília e o sonho, a verdade e o simulacro, a lucidez e a loucura.

Avaliação: 10/10

fonte: http://bibliotecariodebabel.com