segunda-feira, 30 de novembro de 2009

como o vazio

requiem

-Consegue lembrar-se de pormenores?

- Pormenores?

- Sim, descreva-me a cena antes e depois do “acidente”.

- Doutor, sei que estávamos no carro, parados na Praça, a falar normalmente… depois comecei a sentir uma forte pressão na cabeça, um zumbido forte nos ouvidos, a seguir a explosão…

- Estávamos? Explosão?

-Sim, a pessoa morta ao meu lado, tudo a andar à roda…

-Morta?

-Sim, a Praça em chamas, eu sem sentir nada, a bater a porta do carro, de volta a casa. Sem acudir a minha companheira, ali mesmo, fulminada ao meu lado. E tudo a desmoronar-se em redor e eu a passar por toda aquela catástrofe, coração de pedra, alheio à desgraça…

- Senhor Fernando, pare por agora, se faz favor.

- Repare, nada do que me conta faz grande sentido. Caso não saiba, apareceu-nos aqui à porta do hospital como outro qualquer paciente, queixava-se de uma forte enxaqueca, pedia só que lhe receitassem algo para suportar as dores, nada mais. O curioso foi começar por trocar a sua identidade, os seus dados pessoais: morada, estado civil… daí esta consulta.

- Quer dizer que não se passou o que se passou?

- Como?

- Se a minha companheira está viva… se a Praça não veio abaixo.

- Senhor Fernando, o que se passou consigo ao certo, não sei. Posso sim afirmar que esteve envolvido num processo traumático, caracterizado por uma perda parcial ou total de memória: uma espécie de negação, não é quem afirma que é, não mora onde diz que mora… simplificando, toma-se por alguém que não é a pessoa com quem estou a falar. Faço-me entender?

- Hum, nem por isso.
Diga-me, quem sou eu, antes e depois desse dito “processo traumático”?

- Homem, isso cabe-lhe a si desvendar. Dou-lhe um conselho, depois de sair do hospital, vá directo a casa, siga os caminhos que lhe são familiares, puxe pela memória, tente encontrar a dita Praça, a sua casa. De seguida contacte quem lhe é próximo, vá à sua agenda e tente telefonar a cada uma das pessoas da lista, fale com elas até ao limite do tolerável: obtenha histórias comuns de vida, detalhes - tente rescrever o seu passado, as afinidades com quem o rodeia. Depois será fácil confirmar a existência real dessa referida companheira, se para si o assunto é assim tão importante. Não se esqueça, todos esses elementos serão essenciais para a reconstrução da sua personalidade.
Finalmente escreva, escreva tudo quanto lhe passe pela cabeça para interiorizar a sua nova biografia. E por que não começar por esta nossa conversa?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

da mentira

Ausentei-me há muito. Não sinto falta da Ribeira das Naus, tão pouco dos sons do Tejo. Hoje as gaivotas recordam-me dias de tempestade. Estou em terra firme, a brisa marítima, minha confidente passou a miragem.
Escrevo-te como se vivesse no exílio: mas não, parti por vontade própria. As cores aqui são outras, as pessoas falam mais alto, projectam a voz desgarrada a curta distância. Habituei-me depressa ao ritmo desta cidade. A torrente de cheiros novos, alguns nauseabundos, contaminam-me todo o tempo. Quase sou um deles. Ainda visto os trapos velhos para te recordar, deliro nos gestos de ontem para adiar a personalidade do hoje.
Enfraqueço minuto a minuto, o sangue preguiça dentro de mim, assombra-me o infortúnio. Ouço os teus soluços, longe muito longe, sumidos. Dobram-se-me os joelhos, vergo-me perante o Poder divino, no quente da pedra escura, como se Tu te transformasses num caminho além do que é visível, para este ainda teu comum mortal.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

sugestão do primo Miguel

bichano

O meu gato segue à risca as minhas instruções e logo de manhã, depois de eu sair de casa levanta a mesa do pequeno-almoço e aspira o chão da sala;
ao almoço envio-lhe um sms com a lista de produtos para trazer do supermercado, ele solicito, cumpre à risca cada um dos items e traz põe sempre no cestinho de compras produtos que tenham por garantia a indicação de “melhor escolha”, difundida mensalmente pela revista da defesa do consumidor;
pela tarde, recebo eu uma mensagem, com a pergunta: “e para a merenda, o que vai ser?”; ao chegar a casa degusto um magnífico pão com fiambre e um leite morno, com chocolate, de fazer inveja à leitaria UCAL;
ao cair da tarde, enquanto leio o jornal e as crónicas do António Lobo Antunes refastelado no sofá, o meu gato sai de casa a caminho do jardim-escola para apanhar os meus filhos menores;
já de noite, faço eu o trabalho de casa: cozinho, lavo a louça, adormeço a criançada e ponho a máquina da roupa a lavar. Enquanto tudo isto dura, o gato estende-se principescamente sobre o edredão da minha cama, com propósitos solidários, presumo;
de madrugada mergulho no sono, enroscado no meu felino de trazer por casa.

p.s. – o meu gato não é assim, nem poderia ser. Se assim fosse não estaria a falar de um gato mas de um pau mandado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Salmo

E do estúdio vi o mundo.
Foi-me possível aferir o jorrar do sangue nas veias da cidade. Marcha matutina de todos quantos se afundavam num momento de intenso labor; regresso descontraído à casa que se abre. Tudo registei.
A natureza reassume o controlo absoluto, desfere no Homem golpes misericordiosos de requintada malvadez. Abominável realidade de tom carmim, fétida e putrefacta. Seres pequenos e rastejantes, agora desprovidos de poder.
Murcha o trevo da sorte, caem Deuses das paredes forradas a talha dourada. Não há nada nem ninguém que Lhes valha.
Eu, pintor e carrasco, supremo criador do Universo, me confesso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

da alma

Ia jurar que nos últimos dias o meu coração deixou de bater.
Bato no peito e não obtenho resposta.
Um músculo forte e pára assim de um momento para o outro?
Sou jovem, tenho uma vida pela frente. É certo que não sou casado, nem tenho filhos, mas que raio, quero
continuar a andar por aí!

(Alguém me ouve?)

Se tivesse descontente já teria posto um balázio na cabeça ou uma corda ao pescoço. Mas não o fiz.
À Horas a fio nisto. Sem resposta.
Já quase não ouço. Nem risadas, nem conversas parvas à minha volta. E o barulho dos carros… onde se meteram todos?

(Brincar, tudo bem, mas assim não vale. É estúpido)

A luz?, simplesmente não vejo.
Maldita sina a minha. Se me cansar de vez disto, como é que encontro a saída, conseguem-me explicar?
Bem, sempre vos digo, deitarem-me sobre uma manta acolchoada áspera, por debaixo de uma tábua rasa é de muito mau gosto!

(Por amor de deus)