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A mostrar mensagens de Dezembro, 2009

do feminino

Ensaiamos o grito, e esperamos. Abrimos a porta de alma vesga, adoçada pelo tempero cálido do vento instalado. Do nosso refúgio vemos o fogo que consome o mundo, casa a casa. Hesitamos expor a nossa angústia. Todos nos ignoram. Somos fugitivas, marcadas pelo tempo e pela cor da raiva alheia.
De mão em mão passamos o que recolhemos nas horas fartas da civilização. As crianças olham-nos desconfiadas. Daqui controlamos possíveis tentações que o poder instalado fez passar entre os demais. O contágio alastrou-se, imparável.
Temos consciência de que a solidariedade grupal nos há-de devolver o bem que tem faltado. Somos de outros mares, inimigas invisíveis de quem quer combater e não consegue. Soltamos amarras do porto feito partida, acenamos à vista de quem não nos quer ver regressar. A tarde viajada trará memórias desabridas, honras mal paridas, mulheres indesejadas. Somos filhas do quadro pintado, na frente de quem nos leu.

perto demais

E podemos ser tão felizes juntos!
Parece que ainda o ouço, contigo mesmo aqui a meu lado.
Tomo por boa a convicção de que acreditavas um futuro brilhante, a dois – venha lá quem vier dizer-me o contrário.

Já reparaste o quão bonita é a nossa casa?
Vim de lá agora mesmo. As cortinas da sala ficaram lindas – a Ti Justina sempre teve mãos de artesã.
Não vejo que te sintas melindrado, mas troquei o modelo da cama de casal do nosso quarto. Como te vi calado, preferi a variante sem cabeceira, aquela cor de Pinho. A serenidade da tua expressão deixa-me tranquila pela escolha.

Olha só, Querido, os papás não te queriam ver nesse estado, mas estão aqui para me apoiar. Sempre se preocuparam com o nosso bem-estar!
Perpetuaram-te a memória: espalharam fotografias tuas pela casa, estás em todas sempre de sorriso aberto, que lindo ficas tu de cara alegre.

Prepara-te, o senhor padre já lá vem. Tanta gente no adro da igreja. Deixa-me enxaguar as lágrimas antes de te ver partir de vez. Vim de branco…