segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

do feminino

Ensaiamos o grito, e esperamos. Abrimos a porta de alma vesga, adoçada pelo tempero cálido do vento instalado. Do nosso refúgio vemos o fogo que consome o mundo, casa a casa. Hesitamos expor a nossa angústia. Todos nos ignoram. Somos fugitivas, marcadas pelo tempo e pela cor da raiva alheia.
De mão em mão passamos o que recolhemos nas horas fartas da civilização. As crianças olham-nos desconfiadas. Daqui controlamos possíveis tentações que o poder instalado fez passar entre os demais. O contágio alastrou-se, imparável.
Temos consciência de que a solidariedade grupal nos há-de devolver o bem que tem faltado. Somos de outros mares, inimigas invisíveis de quem quer combater e não consegue. Soltamos amarras do porto feito partida, acenamos à vista de quem não nos quer ver regressar. A tarde viajada trará memórias desabridas, honras mal paridas, mulheres indesejadas. Somos filhas do quadro pintado, na frente de quem nos leu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

era uma vez

perto demais

E podemos ser tão felizes juntos!
Parece que ainda o ouço, contigo mesmo aqui a meu lado.
Tomo por boa a convicção de que acreditavas um futuro brilhante, a dois – venha lá quem vier dizer-me o contrário.

Já reparaste o quão bonita é a nossa casa?
Vim de lá agora mesmo. As cortinas da sala ficaram lindas – a Ti Justina sempre teve mãos de artesã.
Não vejo que te sintas melindrado, mas troquei o modelo da cama de casal do nosso quarto. Como te vi calado, preferi a variante sem cabeceira, aquela cor de Pinho. A serenidade da tua expressão deixa-me tranquila pela escolha.

Olha só, Querido, os papás não te queriam ver nesse estado, mas estão aqui para me apoiar. Sempre se preocuparam com o nosso bem-estar!
Perpetuaram-te a memória: espalharam fotografias tuas pela casa, estás em todas sempre de sorriso aberto, que lindo ficas tu de cara alegre.

Prepara-te, o senhor padre já lá vem. Tanta gente no adro da igreja. Deixa-me enxaguar as lágrimas antes de te ver partir de vez. Vim de branco como se… por não te querer saber triste. Éramos noivos antes do…, desculpa. Ainda assim, seremos um casal perfeito, mesmo depois de te deitarem à terra. De aliança no dedo.

Adeus, Amor. Que a eternidade não te pese.
E podemos ser tão felizes juntos!