terça-feira, 15 de junho de 2010

divulgação: leitura encenada Mistero Buffo (excertos) de Dario Fo

CONTAGIARTE
Rua Álvares Cabral, 372 - Porto

quinta-feira, 17 de Junho de 2010
22:30 - 23:00


Continuando o ciclo dedicado à exploração performativa das palavras -
Ar das Palavras - e no âmbito do ciclo Dário Fo que Terra na Boca
organiza no decurso de 2010, apresentamos agora uma obra-prima deste
nobel da literatura: Mistero Buffo.
Estreado em 1969 em formato de monólogo/contador de histórias, e logo
alvo de polémica, Mistero Buffo é uma colectânea de narrativas,
meditações, anedotas e comentários de inspiração medieval italiana,
mas que o narrador/actor/encenador usa para reflectir a nossa
realidade social e pessoal, por vezes de forma comovente, por vezes de
forma divertida.

tradução e adaptação de Jorge Palinhos, direcção de Vanessa Martins,
interpretação de Luciano Amarelo, Pedro J. Ribeiro e Vanessa Martins.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

da festividade

Deram-nos por baptismo o nome de João.
Eu, cresci nas ermas terras do Norte de Portugal, há muitos séculos
atrás; ele, cavalgou por terras longínquas, daquelas que nunca a
minha vista alcançou.
Fui um ser modesto, ajudei quem pude, como sabia, trabalhando nas
colheitas, amassando pão, apregoando bons conselhos a gente simples;
ele, calejado em retórica, afrontou o poder instituído. Herodes
tomou-o por inimigo, combateu-o no deserto, venerou-o no esquecimento.
Não lamento ter morrido eremita, longe de todos, deixado à minha
sorte, bebendo o eterno sono dos justos; ele, caiu às mãos de um rei
sequioso de sangue, guerreiro vingativo de uma filha caprichosa.
Partilhamos por uma noite de Junho a alegria do Porto, em festa. Dois
homens num mesmo corpo terreno, a folia de quem arrisca saltar
fogueiras, adornar a noite no cheiro do alho-porro e sabor a sardinha
assada. Em uníssono a música deambula rua a cima, rua abaixo.
Ultrapassamos ano após ano a idade infinita da celebração, relembrando
um ao outro o destino que nos uniu.

terça-feira, 25 de maio de 2010

ainda em cena: recomendado

Chão Concreto
apresenta

NA SALA DO TEATRO LATINO
13 a 30 de Maio - Quarta a Domingo

“Noites Brancas”
encenação:Rodrigo Santos

interpretação: Ivo Bastos, Nuno Preto

21h45m

“O Negativo da Voz”
encenação: Rodrigo Santos

interpretação: Tânia Dinis

23h00m

segunda-feira, 24 de maio de 2010

do oriente

Vou pedir-lhe uma última vez, pare de me azucrinar a cabeça com esse maldito acordeão. Estamos no Metro, o som ressoa por tudo o que é sítio. Os passageiros não lhe ligam pevas e você insiste, como tivesse saído laureado do Conservatório de Música. A caixa de esmolas que a criancinha traz na mão continua vazia, o senhor nem por um momento hesita e pressiona com mais força as teclas do instrumento. Não tenho dúvidas, esta história vai acabar mal, para si e para quem o acompanha. Se quer que lhe diga, e já que não tem nada de melhor para fazer, podia dedicar-se a apreciar a grandiosidade da linha Vermelha, das monumentais Gares. Sabe, quando eu era miúdo os percursos do Metropolitano de Lisboa resumiam-se a um caminho em forma de Y. Como isto cresceu. Por mim passaram mais de vinte anos, tempo bem aproveitado para a retroescavadoras esventrarem a cidade de uma ponta a outra. Se algum dia eu imaginei poder vir passear a Marvila para ter betão e terra como paisagem?! Antigamente isto aqui era só armazéns, máquinas de extracção de areia e sucata sem dono. Bom para jogar à bola era ali a caminho de Belém, por detrás da Rua da Junqueira, num cantinho de erva verde, por debaixo dos pilares da Ponte 25 de Abril. Agora já ninguém se atreve a fazer o mesmo – levantaram lá uns prédios de luxos do arquitecto Valssassina: acabou-se o jogo, os miúdos e as tardes quentes de papo para o ar.

Os bolsos de fora ainda sem um tostão, meia dúzia de carruagens percorridas, sem quebrar. E já estamos a chegar ao terminal ferroviário. O senhor não se cala.
Arrepiante, seria se ali para Chelas tivesse havido festa da grossa: um grupinho de rufias por aqui adentro, carteiras dos senhores passageiros para cá, sem choro fingido, e dá cá as moedinhas, ó animador de subterrâneos. Felizmente para todos, é pouco provável que haja surpresas desagradáveis nas duas paragens que restam. A mim espera-me uma tarde de compras, um passeio pela beira Tejo e um sumo de fruta para refrescar. Quanto a si, não sei, mas talvez o silêncio lhe viesse a calhar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

do antónio

Tem de reconhecer, meu velho, a sua figura cria uma certa repugnância a quem priva consigo. Parece-lhe normal que com sessenta anos se vista e comporte como uma senhora? Caramba, você ainda é casado, tem uma mulher a aquecer-lhe a cama, um filho malcriado, drogado ou pedinte, não interessa, que percorre Lisboa na pedincha de migalhas para uma dose. Bem sei que ganha para si, o suficiente para alimentar a boca da mãe, os vícios do filho, o almoço de domingo em família. Pense numa coisa, cantar à noite numa cave esconsa, repleta de homens salivantes, alheios à digna arte do playback, é tudo menos próprio para um si, homem de deus.
Soraia, Soraia, eu não posso identificá-lo dessa forma, estamos num hospital público, não num circo de aberrações. Dê-me um nome próprio, apelido. Já me dou por satisfeito, senhor… vá, vá, pare com os enjoos, não me vomite a secretária, a medicação não o impele para tamanha fantochada, esses tremeliques são um truque fácil para se alhear da consulta. É a minha bata branca que o assusta? A sério, deixe-se de coisas, o fumo do meu cigarro nem sequer está a ir na sua direcção. Nunca nenhum paciente me pediu para me abster de puxar umas quantas baforadas.
Sente-se. Conte-me, por que é que começou a comportar-se como esposa da sua esposa…. Pode alguém despertar assim tão tarde para essa estranha forma de vida? Quer dizer, trabalha anos a fio como serralheiro, um lindo dia acorda virado do avesso e pronto: transformista dos pés à cabeça, guarda-roupa próprio, lábios delineados a silicone, sem se questionar? Um trabalho decente pelo cano abaixo e vamos lá passar as noites a encarnar as Madonnas ou a Tina Turners deste mundo… Uma má disposição que começa a vir estômago acima, tolda-lhe o pensamento e olha lá que há Soraia desperta em mim?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

do leste

Ficaste com um ares de desgraçada, nesse esgar de dor perpétua, sabias?
Esqueces-te do que disse no nosso primeiro encontro, tu és bonita, bonita a valer. Teres-me preparado esta surpresa nem parece teu. Como pudeste tu andar tão animada por estes dias. Ontem, anteontem, antes e antes de ontem, não serei exagerado se afirmasse que no último mês da nossa vida tivesse deixado de ver essa tua expressão de felicidade, a contaminar toda a gente com histórias mirabolantes, plenas de tudo de bom que trazias contigo – até eu, que recuso estados de alegria inebriantes, me sentia diferente.
Que gozo me deram aqueles passeios, da praia ao campo, sem itinerário definido. Aventura é aventura, Querido, se não gostas do imprevisto, habitua-te. E eu habituei-me. Em troca pedias-me que te falasse das serras, dos rios, do lugar, deste ou daquele escritor que por lá tinha passado. Se te fosse responder a tudo com seriedade e rigor, quase teria de transportar uma biblioteca itinerante na bagageira do carro. Enquanto não me mandavas calar, eu inventava, inventava mesmo muito, pormenores, características… tanta coisa; desde que tu te levasses pela narrativa. São inumeráveis as vezes que adormeceste colada a mim: a culpa é da tua voz suave, bem colocada, com timbre de embalar criancinhas e raparigas incautas como eu, atiravas divertida. E como aprendias depressa os disparates que te transmitia, não me lembro de uma única ocasião que ao repetirmos o passeio, não tenhas desfiado todo o meu guião de circunstância. Imitavas a cadência das palavras, carregavas no tom de voz feito homem e pronto, e prosseguias sem pausas. Estavas nas tuas sete quintas. O início como o fim pautado por uma sonora gargalhada.

É com o coração destroçado que te acuso. Porquê isto? Porquê assim sem pré-aviso? O voo janela fora que arriscaste jamais poderia contrariar a lei da gravidade. Nunca houve ninguém, em lugar nenhum, que saísse vivo desse raro impulso de libertação extrema. Foste egoísta demais.
No mínimo esperava uma longa e singular carta de amor, a servir de alerta. Nada de nada, nem mesmo o desafio: Depois vai lá ter comigo, Amor. Sem pressa!

terça-feira, 4 de maio de 2010

não caias

blog do dia

http://tempocontado.blogspot.com/

divulgação: workshop dramaturgia tribal II

Dramaturgia Tribal II - Laboratório de Exploração da Imaginação Simbólica - A Metamorfose com Jorge Palinhos

22, 23, 29 e 30 MAIO
14:30-19:30 (20 horas)
Galeria de Paris
Rua das Galerias de Paris, 56 - Porto
Preço: 75€. Amigo Terra na Boca: 67,50€
Mínimo: 8 pessoas. Máximo: 16


A metamorfose é o princípio dinâmico da criação, que rege o nascimento e a morte, a máscara e a transformação. É, por isso, o conceito-central de grande parte dos mitos e também de grande parte das histórias que conhecemos e contamos. Após a boa recepção do primeiro workshop de Dramaturgia Tribal, propõe-se agora este laboratório que, partindo da exploração das imagens, símbolos, ritos e mitos que conhecemos, permitirá aos participantes desenvolver e aprofundar histórias em torno da ideia de transformação e auto-conhecimento.Os textos resultantes deste laboratório deverão ser transformados num espectáculo a apresentar até ao final do ano.

Público-alvo: Estudantes e profissionais de teatro e todos os interessados em escrita criativa e dramática.

Nota: Os candidatos deverão trazer um texto seu, narrativo ou dramático, para ser alvo de trabalho durante o laboratório

Inscrição até 16 MAIO
mais informações, aqui:
http://terranaboca-associaocultural.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de maio de 2010

da mexicana

Deixa-me que te diga, as almas penadas que trazes para casa contaminam o ar que partilhamos. Eu sei que a tua profissão passa por lidar com mortos, corpos deitados em marquesas, sem defesa possível perante a curiosidade do bisturi e da profundidade analítica da medicina legal. Não bastava termos um assassino na cidade a expandir o terror sobre quem sai à rua e chegas tu, leve e fresca ao fim do dia, no à vontade de um qualquer assunto corriqueiro, a falares-me de uma, duas, três mulheres feitas cadáver, dissecadas no teu laboratório. Do que morreram, como as mataram, a cor da pele ou o tom desmaiado dos lábios. Não quero saber, não quero mesmo. Sou um tipo sem pretensões a ser elevado a herói nacional, não pretendo entrar na cabeça desse maníaco que por um qualquer descontrole emocional mata dezenas de raparigas, agarrá-lo e entregar o espécime às autoridades. Por acaso vês-me como representante das forças de segurança? Protector de vítimas indefesas? Eu só te escuto, no limite, dou opinião sobre os relatórios técnicos prévios que me apresentas. Estou farto de tantas descrições mórbidas, de que todas elas podiam estar a viver a sua vida, o seu emprego, a sua família.

Desiste de me arrastar para a agonia da apresentação formal aos que já não habitam o mundo dos vivos. Pára de derramar o sangue dos espectros no chão da nossa casa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

da resposta

A ilusão da infância, aí a vida é vivida em trânsito, nada conta como definitivo. Nem o dicionário menciona o termo… que estranho, depois os anos passam, de forma suave e enganadora. Olhamos para trás e nem uma cassete VHS desmente o passado. Por norma, achamos que não há nada a fazer no revolver do baú das recordações. Digo que andamos todos enganados, podemos mudar, acrescentar cortar a H-I-S-T-Ó-R-I-A. Afinal a escrita existe também para isso, aprender a re-contar é uma virtude.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

da esgrima

Podias-me ter desferido o golpe de misericórdia, teria bastado esticares o braço, desembainhares o teu sabre e de um só golpe ter-me-ias visto cair aos teus pés, esvaído em sangue. Decepcionaste os transeuntes, aquela gente que de forma desatenta assistiu à nossa troca de olhares. Mereciam um espectáculo, a sério. Até posso concordar contigo que matar alguém por tão pouco implica uma condenação longa por detrás das grades, mas repara, eu abandonaria em definitivo a galeria dos teus pretensos namorados perfeitos, juntando-me à ala dos seres fantasmagóricos um dia caídos em desgraça.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

da hera

Um fundo azulado, tranquilo, enquadram uma planta, aparentemente forte, plena de vitalidade a julgar pelo ramo. E no entanto ela espera, murcha ou envergonhada. A mão por debaixo, na esperança de uma cura, aguarda, quem sabe, amparar a queda das folhas sem vida, caducas, que renovarão a sede do rejuvenescimento, cíclico na natureza e bebido a cada instante por cada um de nós, mortais.
Se no entanto nos contaminar o olhar da perspectiva do mal humano, tudo muda: a respiração ofegante da pobre criatura vegetal, enfrenta num rompante a gula perniciosa da extensão do braço humano. A nudez exposta dos rebentos, criaturas lactantes presas às ramificações de sua mãe, enfrentam expectantes a dor latente do colo alheio. E a desgraça submerge a cena. Não nos resta mais nada, senão o uivo perene da natureza em flor.

segunda-feira, 22 de março de 2010

de pequenino

Ao contrário de outros, as minhas aulas de Educação Visual eram um pesadelo: o lápis impelia-me a encher a folha de cavalinho A4 de traços indefinidos, que só a muito custo, quiçá com a colaboração de um técnico de psicologia, se poderia aferir o significado.

Na pintura não me saí melhor, a palete de cores primárias, sempre à espera do processo dinâmico de construção de ambientes mais e mais complexos, cedo se decepcionava com o Eu “artista” - angustiava-me não conseguir expressar-me na tela vazia, de encher o mundo, que para mim era só aquela sala repleta de aspirantes à arte futura.

Confesso que escrever é para mim mais fácil, eu sei que as crianças começam por rabiscar no branco do papel, atabalhoadamente, sem desistir, a sua casa, a mãe, o pai, o irmão “mais” grande, o cão, o gato ou a galinha. A verdade é que desaprendi tudo isso. Logo que entrei para a escola, dediquei-me a desenhar letras como me tivessem a pedir para fazer um retrato. Ao longo dos anos, com o tique de apanhar tudo o que os professores diziam, a caligrafia bonita do início, deu lugar às palavras cortadas ao meio, a frases compridas (às vezes) sem sentido.

Só não posso desistir.

segunda-feira, 15 de março de 2010

do vulcão

Lamento saber que teve uma vida infeliz, senhora Valdete.


Soube-o por si, e senti-me impotente para fazer qualquer coisa que fosse para alterar toda a sua tristeza, a raiva inerente ao seu discurso. Como pode alguém resistir tanto tempo à crueldade de um marido insensível ao amor do próximo e mesmo assim pensar que ainda quer ser feliz? O pulha castigava-a a si e ao menino pelo que me contou. Já não bastava entrar em casa com bafo a álcool, obrigá-la a pôr-se debaixo dele, contra vontade, e mesmo assim não deixava a pobre criança em paz. Fechar alguém num quarto escuro, empurrando até lá dentro aos berros é da tarimba dos verdugos. Fê-lo também consigo, quantas vezes? Um ror delas? Compreendo o sentimento de impontência.

Nem aos animais ele perdoava. Quantos terá ele abatido só por não fazerem o que lhes mandava? Muitos, muitos. Outros morriam porque sim, eram rafeiros decrépitos encontrados no monte e só serviam para o abate. Para tornar o cenário mais negro, incinerava os cadáveres dos bichos: depositava a cinza dos desgraçados em vaso próprio, etiquetava-os e expunha o resultado na vitrina da sala-de-estar, ordenados cronologicamente e por pedigree. Um exterminador, esse seu marido, bem pode dizê-lo. Fazia-o por missão? Há homens assim, santo deus.

Com certeza que tem a razão do seu lado para ter feito o que fez. Dona Valdete ouça, ter-se aproveitado da fragilidade momentânea dele – naquele dia acordou-a lavado em suor, a delirar de febre, foi? – para desferir um golpe de misericórdia, rasgando-lhe o peito de cima a baixo, foi um gesto corajoso, de redenção para consigo mesma, pelo menino.

Se eu estivesse no seu lugar teria aproveitado a primeira oportunidade para acabar com a raça do animal.

segunda-feira, 8 de março de 2010

a testemunha

Peço-te que por agora não chores. O diagnóstico do médico não é assim tão mau. Escuta, a inflamação no ouvido é minha, não tua. Por que é que não apertaste a mão ao senhor doutor? Ele foi solícito comigo, atento. Deixar alguém de mão estendida é falta de educação.


Pronto, eu cedo. Nas próximas semanas podes-me pôr as gotas, relembrar-me onde está o antibiótico, accionar o despertador para que a hora da medicação não fique esquecida. Sim, acordas comigo: vais encher o copo de água à cozinha e voltas para o meu lado. Tens razão, assim não preciso de me destapar, os meus pés não se arrepiam com o frio da tijoleira. Se o gato miar não te assustes, ele ainda não se habituou à tua presença, faz-lhe uma festa que ele volta a aninhar-se no sofá. Tranquilo.

Quando eu ficar bom prometo sair mais contigo, dar um passeio grande, demoramos o tempo que quiseres. Podemos ir aquela praceta do outro dia – chovia, nós abrigámo-nos e comemos um éclair cada um. Mesmo assim o teu era maior do que o meu. Gulosa. O teu café duplo, o meu simples e com uma pontinha de leite frio. Não, não digas isso, não foi depois dessa tarde que fiquei pior, eu já estou assim desde Janeiro. Sabes, andei a brincar ao Ano Novo, deitei fogo-de-artifício para mais de cem pessoas. Fui o mágico da aldeia por umas horas e olha, um vírus apanhou-me distraído no meu entusiasmo.



Vá, volta atrás, corta com a má impressão que causaste. Limpa as lágrimas e os olhos esborratados do rímel. Eu posso ficar aqui à porta do consultório. Está certo, eu cubro-me com o teu casaco, aconchego-me nele, enquanto me deixas só. Agora vai. Vai.

segunda-feira, 1 de março de 2010

:2

Confiamos os dois. Prontos a correr alinhados desde o tiro de partida. A ideia de paixão nasce da fuga aos dias sós. É a alegria nas mortais palavras. Expande-se a promessa do amor, crença que perdura no melhor fim. Quero conhecer as marcas do teu corpo, liso ou rugoso, examinar-te a alma, fundir a felicidade que há em nós. Vou querer roubar-te para mim, viajar no silêncio para regressar mais tarde. Para assim ficarmos depois.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Música: concerto de Ana Deus, 6 de Março de 2010

6 Março

23:00

Villa Community
Avenida dos Aliados, 66 - Porto

Concerto Performativo para a comemoração de um ano de constituição da Associação Terra na Boca.
DONA CHICA é uma senhora de idade, apreciadora de boa mesa, boa cama, belas festas e de música de dança. Os seus gostos e desejos para o "futuro" são revelados por cima de batidas fortes e rifs de guitarras roucas. "Eu que sou velha quero a coisa mais tenra do mundo..." canta ela em "Teoria dos contrastes". Na parede, em vídeo, projectam-se corpos dançantes, de idosos "gaiteiros", de todos os tempos. voz Ana Deus programações João Alves vídeo Sofia Lomba

Preço 10€ * 15€ **

Inclui - Oferta de inscrição de Amigo Terra na Boca, no valor de 20€, para usufruir no primeiro quadrimestre ou como desconto na jóia anual (excepto nos espectáculos MALACORPO e Solo Lesson Show no Teatro Helena Sá e Costa); - Porto de Honra; - Sorteio de um Curso de Chacras.

* Transferência bancária até 28 de Fevereiro com envio do compro-vativo e do seu BI digitalizado, com o respectivo contacto para: terranaboca@gmail.com

** Transferência bancária de 1 a 5 de Março com envio do compro-vativo e do seu BI digitalizado, com o respectivo contacto para: terranaboca@gmail.com. No dia 6 de Março o bilhete poderá ser adquirido no próprio local a partir das 19h

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

o mais feio de todos

Já perdi a conta às vezes que me aturaste. Em que ao ouvires a minha voz apagada disseste “isso não é nada, rapaz”. Do trabalho aos namoros, tenho dias que só me apetece mandar tudo à merda, família, amigos, tudo positivamente. É nessas ocasiões que qual messias, o telefone toca e lá vens tu com uma palavra ponderada, esclarecido como poucos, o homem que também puxa a minha carroça para a frente.

Miguel, ainda te lembras do dia em que começámos a crescer juntos?, eu tenho isso bem presente: Era Julho, apareceste em Lisboa com o teu pai e ficaste lá em casa, mesmo depois dele ter regressado a Odemira, a partilhar as tuas férias comigo. Jogámos à bola juntos, andámos na rua a derrotar ao keips todos os ranhosos da Feliciano de Sousa (este gajo foi um sindicalista dos inícios do século XX, sabias?) e fomos de certeza à bola, ver o Atlético levar no pêlo - uns anos depois destes primeiros episódios, estivemos no velho estádio da luz a assistir a uma partida de futebol da Taça de Portugal, em que o Benfica recebeu e venceu, após prolongamento o Guimarães: o que chovia, como nós ficámos encharcados. Que vitória!

E os projectos por realizar, meu bom rapaz?! Espero escrever contigo, filmar contigo, no fundo divertir-me e desfrutar da tua companhia. Se conheço o Algarve e tenho hoje em dia uma boa relação com o sítio, devo-o a ti. Desde a tua mudança lá para baixo, que faço questão de, quase religiosamente, ir até São Brás fazer-te uma visita. Começo a movimentar-me à vontade por Tavira, Faro, Loulé. Tudo porque tu estás aí, só por isso.

Desculpa não ter estado em Cádis para o casamento. Foi de repente, tão inesperado, teria de pôr algo formal, para não fazer má figura. Estar fora do meu ambiente. Custou-me ficar no Porto, saber só dos pormenores telegráficos da cerimónia. Merecias o meu esforço.

Uma última coisa, vejo-te como um irmão, tremo de poder perder-te um dia. Partires para outro lugar. Nos teus fins-de-semana em Espanha, desejo sempre que regresses sem sobressaltos. Se um dia decidires a tua vida por lá, como é que eu fico? Provavelmente mais sozinho, com menos paciência e amor para dar a quem esteja comigo. Sabes, mesmo com alguma diferença de idade, somos muito parecidos, quase iguais: cabelo grisalho, olhos verdes… e claro, o sangue que corre, AHR negativo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

workshop Lúcia David à volta dos livros, na livraria Index


Este workshop é dirigido a alunos do ensino secundário e adultos com interesses em artes plásticas e tem como intenção uma primeira abordagem ao mundo de Bookarts (Livros de Artista).


Pretende-se que os participantes, ao olhar para um livro, possam reconhecer e identificar os seus componentes, repensar os conteúdos, reconstruir a forma.


DATAS

18 FEV – 5ª feira - 14:30 às 17:30. Público-alvo: adulto.

Pagamento: 15 € por participante - a sessão realiza-se com um número minímo de 15 participantes.



19 FEV – 6ª feira

SESSÃO – 10:00 às 13:00 e das 14:30 às 17:30. Público-alvo: adulto.

Pagamento: 30 € por participante - a sessão realiza-se com um número minímo de 15 participantes.



NOTA:

A inscrição poderá ser realizada via correio ou correio electrónico.

No dia 18 de Fevereiro de manhã realiza-se uma sessão para o público-escolar. Para mais informações, por favor, contactar: geral@indexlivraria.com

agridoce

Ainda respiras? Não te sinto a pulsação. Para mim é quase como se tivesses morrido. O teu corpo está frio. Que horror! não te sabes agasalhar antes de te deitares aqui comigo? Não sou nenhuma botija de água quente, rapariga. Ter de dormir com um cadáver (ausente) é algo desagradável. Nem o teu cheiro fica nos lençóis. Qualquer dia deita-se aqui outra moça, igualmente friorenta, que monopolize a roupa de cama e eu ficarei impotente para travar o súbito das nossas memórias.
Prefiro que a minha futura seja carinhosa, tu eras brutinha, em vez de me amaciares a carne, tonificares a pele com meiguice, desatavas apelar ao repentismo da aeróbica e fazias de mim um joguete entre a cabeceira e os pés da cama. Bem podia espernear ou gemer aos teus ouvidos, que a menina nada de ser cooperante ou compreensiva. Um abuso. Deixei mesmo de nadar aos Sábados de manhã por tua causa: explica-me, onde e como poderia eu encontrar forças suficientes para vencer uma piscina olímpica depois de uma noite de pinotes, cambalhotas e flic-flacs à retaguarda?! Querida, ponderei abandonar a leitura compulsiva de romances e dedicar-me em exclusivo à transformação de mim mesmo num atleta de alta competição. Trocaria a Praça pelo Centro de Alto Rendimento do Jamor e teria por companhia tenistas ou halterofilistas. Tudo em prol do nosso bem-estar, só para corresponder aos índices de massa gorda e massa magra, descritos no teu Manual de homem perfeito. Na minha dieta constariam as proteínas, os hidratos de carbono, as gorduras, as fibras, o cálcio, outros minerais, não esquecendo as vitaminas.
E como seria belo, saudável e feliz (contigo).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

uns breves minutos com o david

do pai

Pai, o que nós podíamos ter pescado, Pai. Aproveitar os Verões no Alentejo e pescar o tempo inteiro; o rio Mira, na Casa Branca puxava-nos. Era sairmos da casa da Avó, sozinhos, sem a Mãe, nem o Paulo - que já nem passava as férias connosco - e zarparmos. Estávamos só a 10 minutos de caminho, Pai. Tínhamos o carro às ordens, ninguém nos incomodava, e lá iríamos nos para o pontão do braço de rio.
Por mim teria abdicado de todas as manhãs de praia: como eu detestava acordar ao som das mulheres da casa, vestir os calções de banho, uma t-shirt e por uns sapatos e ir para Milfontes, Pai. Eu era a única das crianças da casa a resmungar com toda aquela azafama, injusta e injustificada – o primo Miguel por vezes alinhava no boicote, mas só às vezes, e só uma gripe ou o nevoeiro de S. Luís impedia que gastássemos tanta gasolina e energia para estarmos à beira-mar. Tu, mesmo lá pescavas, sozinho, ias para as rochas, lembras-te? Sim, as rochas, as das praias das Furnas. Eu receava subir ao alto contigo, tinha medo de perder o equilíbrio e cair: eu sei que me darias a mão, Pai, mas mesmo assim o medo iria dominar-me por dentro e por fora: e se acontecesse uma desgraça?, eu caído inanimado, no chão, todos os banhistas à minha volta e tu de olhar incrédulo para o destino – como seria?
Muito direitinho, ficava cá em baixo, a brincar com o disco do Miguel ou a jogar às cartas com a Ana e a Lena, a contar as horas, receoso de que não mais aparecesses para nos recolher de volta. A Mãe e as minhas tias eram umas chatas, não nos deixavam estar mais do que cinco minutos ao Sol - não que eu gostasse -, e também agarravam-nos sempre a mão quando íamos à água, como se faz com os meninos pequenos. Um terror, Pai!

Agora está a ficar tarde, Pai. Tu estás mais velho e mais companheiro. Passas o tempo longe de mim, entre Lisboa e S. Luís, com a Mãe, para cima e para baixo – Quantos quilómetros fizeram vocês nestes últimos meses, depois da nova casa estar pronta? “Lá em baixo a partir da Primavera está-se melhor, filho”. Atendes muitas vezes o telefone e dizes-me breves palavras bonitas, preocupadas; eu aqui estou para te ouvir, ainda que por instantes, Pai.
Para mim serás sempre forte, mesmo quando estás doente, com o pé inchado por causa do ácido úrico ou no Inverno quando passas alguns dias a andar por casa, com o roupão vestido por cima do pijama, a tomar Paracetamol e atacado dos brônquios – tu que em criança andaste por caminhos de cabra, com lobos a morderem-te os calcanhares, a caminho das minas de volfrâmio.
Mas eu tenho fraquezas, Pai. Quando os teus irmãos morreram, abracei-te mas não consegui dizer palavra: custou-me a mim tanto como a ti - não tanto por eles mas por a tua dor: as minhas lágrimas eram por te ver momentaneamente triste, sem consolo. Pergunto-me, Que fiz por ti?
Podíamos pensar passear por Lisboa, ir até Alvalade ver o tio António e a tia Idalina, e o meu primo António Pedro se ele lá estivesse. Tu que trabalhaste nos táxis podias-me dizer os nomes daquelas ruas sem ser preciso olhar o mapa, falares-me de quem morou ali no antigo regime ou ficarmos a olhar as árvores da Avenida da Igreja. Mas não, Pai, agora quando passo o fim-de-semana em Alcântara fico por casa a ver televisão ou a ler, enquanto tu Pai, tratas das tuas coisas no quintal, vês telenovelas e concursos com a Mãe, ou vais à rua tomar café com os amigos.
Por dois ou três dias somos uma família quase completa, não fora o Paulo morar na Amadora com a Inês, a Joana e a Sílvia.

É verdade, com isto tudo esqueci-me da pesca, Pai, mas isso já não interessa para nada.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

divulgação: workshop dramaturgia tribal

Horário: 6 fevereiro 2010 às 14:30 a 14 fevereiro 2010 às 20:30
Local: ACE/Teatro do Bolhão
Organizado por: Luciano José de Sousa Amarelo


Descrição do evento:
Dramaturgia Tribal - Workshop de exploração da imaginação simbólica
com Jorge Palinhos. 14h30-19h30 (20 horas).

ACE/Teatro do Bolhão, Praça Coronel Pacheco, 1.
Valor: 75€.
Valor Amigo Terra na Boca: 67,50€

Este workshop pretende explorar a escrita dramática através dos
símbolos, dos ritos e dos mitos que regem invisivelmente a nossa vida.
Com base em estudos mitológicos, antropológicos, semióticos e
textuais, os participantes farão vários exercícios que lhes permitam
mergulhar na sua mitologia pessoal e compreender quais as histórias
que querem contar e o que é que as histórias significam para si.
Público-alvo: estudantes e profissionais de teatro e todos os
interessados em escrita criativa e dramática.

Programa do curso
1.º dia – sábado, 6 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Apresentação/Aquecimento
2) Totem
2.1) A criação
2.2) O inferno
2.3) A caixa
3) Debate

2.º dia – domingo, 7 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Aquecimento
2) Tabu
2.1) O labirinto
2.2) A floresta
2.3) A destruição
3) Distribuição de trabalhos

3.º dia – sábado, 13 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Aquecimento
2) Apolo e Dionísio
2.1) A flauta e a harpa
2.2) O sol e a lua
2.3) Os trabalhos e os dias
3) Leitura e debate sobre os trabalhos

4.º dia – domingo – 14 de Fevereiro – 14h30-20h30
1) Aquecimento
2) O lugar de onde se vê
2.1) O movimento das palavras
2.2) O espaço das palavras
2.3) Os arquétipos
3) Leitura e debate sobre os trabalhos realizados

19h30 – Leitura aberta ao público, de entrada livre, com a colaboração
de actores profissionais.



Mínimo: 8 pessoas. Máximo: 15 pessoas.
Inscrições até dia 31 de Janeiro.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

andando (2/2)

E ali estávamos os três, reunidos para o habitual almoço evocativo, tensos, acossados, cada um circunscrito ao seu universo. Durante aquelas horas passou-me diversas vezes pela cabeça deixá-los à sua sorte de casal na terceira idade, fazer o saco e regressar ao meu apartamento, no centro da cidade. Mas não, entre a altivez do Pai, que de meia em meia hora, questionava a minha opção profissional – “Com que então senhor restaurador… senhor restaurador, de merda, só pode!”; “por isso é que não constituis família – uma namorada aqui, outra ali e pronto, nada de casamento ou filhos: para quê mudar de vida?”, “O teu irmão sim, era de medicina, um futuro Senhor Doutor…”. Ripostei: nunca o vi abdicar de algum do seu tempo, senhor meu pai, para de forma carinhosa e dedicada, olhar para mim e para o AS como seres autónomos, senhores da sua vontade. Sempre nas Urgências, Consultas fora de horas a vizinhos e conhecidos, estudioso de anatomia ou perspicaz investigador das mais recentes inovações farmacológicas para o tratamento de enxaquecas ou dores de dentes. Egoísta!
A minha mãe aos primeiros sinais de conflito olhava o prato ainda cheio de arroz de cabidela. Com placidez, qual mártir, evocava entre dentes os santinhos para que tudo acabasse bem entre nós, fossemos uma família feliz, pelo menos durante aquele dia.

O momento mais bizarro, acabou com a visita do NM, o tal amigo do meu falecido irmão. O rapaz, não passava de um ser desprovido de auto-estima, condicionado por efeito de anti-depressivos. Com trinta anos ainda vivia em casa dos pais e só esporadicamente fazia um outro biscate, presumo mesmo que nunca terá tido mesmo emprego por mais de seis meses. NM vivia sob o peso de ter sido salvo da morte certa por alguém inequivocamente com mais futuro que ele, mais inteligente e com um apurado sentido de responsabilidade. Enquanto a minha mãe lhe agradecia, com acentuado ênfase, ele se ter lembrado de partilhar a refeição connosco, o meu pai mal ele se aproximou da sala de jantar, virou-lhe as costas, fingindo contemplar o jardim, mal o cumprimentando. Eu tentava ser cordial, deixando-me estar no meu lugar. No íntimo contava os minutos para ele sair porta fora. Ficou até sentir o estômago cheio. Na despedida olhou a fotografia do meu irmão, e pareceu-me tê-lo visto fazer algo parecido a uma pequena vénia.
Durante o resto da tarde não mais vi o meu pai. Acompanhei a minha mãe ao cemitério, ajudei a limpar a campa do meu irmão das ervas daninhas que a Primavera trouxe e a pôr os Malmequeres na sepultura, flor de que ele tanto gostava.
Após o jantar a mãe teve um momento em que perdeu por completo o controle de si mesma: enquanto os três víamos na TV um daqueles concursos de “cultura geral”, entrou pela janela aberta uma borboleta amarela. Sem que nada o fizesse esperar levantou-se repentinamente, correu para pobre insecto e como se de um ente querido se tratasse, deu vivas e graças a Deus, lacrimejou e de braços abertos e cabeça levantada, lá foi ela a correr casa a fora. Depois de alguns momentos de estupefacção, eu e o meu pai decidimos que aquilo estava a ser barulho a mais para uma casa de pessoas normais. “É o teu irmão, o teu irmão!!!”, “Mãe…”, “Que é que te deu, mulher?”, “Calma, calma, eu ponho o bicho lá fora.”
Nessa noite estriei um pijama novo, azul, a cor favorita do meu irmão primogénito (alguma vez alguém lá de casa me perguntou qual a minha cor favorita?).

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço ainda houve tempo para uma última fotografia de família. Os meus pais e eu, com o retrato do AS ao peito da minha mãe, junto ao coração. Seguimos a pé para a estação de camionagem, as despedidas habituais e um “até breve”, menos quente que aquela manhã de Verão.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

andando (1/2)

Agora que olho para trás, já só consigo relembrar aquele dia de Verão como algo distante, como se alguém me tivesse contado a história vivida por outrem. Posso-vos assegurar que estive lá, só não tenho é a noção da dor.
O filho primogénito dos meus pais tinha morrido num infeliz acaso: para socorrer um amigo de infância da força das ondas, deixou-se levar pelo mar bravio, na praia a poucos passos da nossa casa. O corpo foi resgatado horas depois, na preia-mar, quase desfeito.
Eles jamais recuperaram do choque e desde então passámos a fazer uma reunião de família para que a memória de AS fosse preservada, entre nós.
Para mim, as recordações de AS eram meramente circunstâncias, se é verdade que nos deixávamos levar pelo entusiasmo das brincadeiras de rapazes, a diferença de idades, levou a que com o passar dos anos nos fossemos tornando estranhos um para o outro. A medicina fascinava-o, convicto das ideias do nosso Pai, AS dedicava-se com afinco à preparação dos exames escolares e a aprofundar o seu estudo e conhecimento do corpo humano. Era um exemplo, aos olhos do meu pai ele era perfeito, iria perpetuar o prestígio de um apelido, exercendo um ofício ao alcance de poucos.
Eu pelo contrário, rebelei-me e cursei Património e Restauro. Era constantemente posto em causa pelo pater famílias. Ridicularizado. “É mexendo em pedras velhas e recompondo móveis usados que vais arranjar sustento?”, perguntava ele.
A minha mãe, coitada, filha de camponeses, tinha somente a escolaridade básica. Viu no casamento com o senhor Doutor um escape aos males da miséria da vida rural de outrora. Depois de se tornar a esposa do jovem médico de bairro, foi-se tornando numa exemplar dona-de-casa, e a cozinha era o seu lugar eleição. Acima de tudo obedecia ao marido, sem o importunar com questões menores do dia-a-dia.

(continua...)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

muito lá de casa

Acordei ao som de um barulho estranho, seco. A tua caixa, a tua caixa. Num impulso, saí do quarto mal desperto, num salto cheguei à sala. O gato, em plena acção, fazia deslizar pelo chão o precioso objecto. Eu, guardião improvável de memórias alheias: daquelas partilhadas em noites improváveis, perito em levantar nevoeiros em dias radiosos, barqueiro nas águas de fogo, estava derrotado. O jogo inocente de um felino (Felis silvestris catus) destruiu toda a poesia que um sonho pode conter.
E nunca mais te vi.