terça-feira, 26 de janeiro de 2010

divulgação: workshop dramaturgia tribal

Horário: 6 fevereiro 2010 às 14:30 a 14 fevereiro 2010 às 20:30
Local: ACE/Teatro do Bolhão
Organizado por: Luciano José de Sousa Amarelo


Descrição do evento:
Dramaturgia Tribal - Workshop de exploração da imaginação simbólica
com Jorge Palinhos. 14h30-19h30 (20 horas).

ACE/Teatro do Bolhão, Praça Coronel Pacheco, 1.
Valor: 75€.
Valor Amigo Terra na Boca: 67,50€

Este workshop pretende explorar a escrita dramática através dos
símbolos, dos ritos e dos mitos que regem invisivelmente a nossa vida.
Com base em estudos mitológicos, antropológicos, semióticos e
textuais, os participantes farão vários exercícios que lhes permitam
mergulhar na sua mitologia pessoal e compreender quais as histórias
que querem contar e o que é que as histórias significam para si.
Público-alvo: estudantes e profissionais de teatro e todos os
interessados em escrita criativa e dramática.

Programa do curso
1.º dia – sábado, 6 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Apresentação/Aquecimento
2) Totem
2.1) A criação
2.2) O inferno
2.3) A caixa
3) Debate

2.º dia – domingo, 7 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Aquecimento
2) Tabu
2.1) O labirinto
2.2) A floresta
2.3) A destruição
3) Distribuição de trabalhos

3.º dia – sábado, 13 de Fevereiro – 14h30-19h30
1) Aquecimento
2) Apolo e Dionísio
2.1) A flauta e a harpa
2.2) O sol e a lua
2.3) Os trabalhos e os dias
3) Leitura e debate sobre os trabalhos

4.º dia – domingo – 14 de Fevereiro – 14h30-20h30
1) Aquecimento
2) O lugar de onde se vê
2.1) O movimento das palavras
2.2) O espaço das palavras
2.3) Os arquétipos
3) Leitura e debate sobre os trabalhos realizados

19h30 – Leitura aberta ao público, de entrada livre, com a colaboração
de actores profissionais.



Mínimo: 8 pessoas. Máximo: 15 pessoas.
Inscrições até dia 31 de Janeiro.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

andando (2/2)

E ali estávamos os três, reunidos para o habitual almoço evocativo, tensos, acossados, cada um circunscrito ao seu universo. Durante aquelas horas passou-me diversas vezes pela cabeça deixá-los à sua sorte de casal na terceira idade, fazer o saco e regressar ao meu apartamento, no centro da cidade. Mas não, entre a altivez do Pai, que de meia em meia hora, questionava a minha opção profissional – “Com que então senhor restaurador… senhor restaurador, de merda, só pode!”; “por isso é que não constituis família – uma namorada aqui, outra ali e pronto, nada de casamento ou filhos: para quê mudar de vida?”, “O teu irmão sim, era de medicina, um futuro Senhor Doutor…”. Ripostei: nunca o vi abdicar de algum do seu tempo, senhor meu pai, para de forma carinhosa e dedicada, olhar para mim e para o AS como seres autónomos, senhores da sua vontade. Sempre nas Urgências, Consultas fora de horas a vizinhos e conhecidos, estudioso de anatomia ou perspicaz investigador das mais recentes inovações farmacológicas para o tratamento de enxaquecas ou dores de dentes. Egoísta!
A minha mãe aos primeiros sinais de conflito olhava o prato ainda cheio de arroz de cabidela. Com placidez, qual mártir, evocava entre dentes os santinhos para que tudo acabasse bem entre nós, fossemos uma família feliz, pelo menos durante aquele dia.

O momento mais bizarro, acabou com a visita do NM, o tal amigo do meu falecido irmão. O rapaz, não passava de um ser desprovido de auto-estima, condicionado por efeito de anti-depressivos. Com trinta anos ainda vivia em casa dos pais e só esporadicamente fazia um outro biscate, presumo mesmo que nunca terá tido mesmo emprego por mais de seis meses. NM vivia sob o peso de ter sido salvo da morte certa por alguém inequivocamente com mais futuro que ele, mais inteligente e com um apurado sentido de responsabilidade. Enquanto a minha mãe lhe agradecia, com acentuado ênfase, ele se ter lembrado de partilhar a refeição connosco, o meu pai mal ele se aproximou da sala de jantar, virou-lhe as costas, fingindo contemplar o jardim, mal o cumprimentando. Eu tentava ser cordial, deixando-me estar no meu lugar. No íntimo contava os minutos para ele sair porta fora. Ficou até sentir o estômago cheio. Na despedida olhou a fotografia do meu irmão, e pareceu-me tê-lo visto fazer algo parecido a uma pequena vénia.
Durante o resto da tarde não mais vi o meu pai. Acompanhei a minha mãe ao cemitério, ajudei a limpar a campa do meu irmão das ervas daninhas que a Primavera trouxe e a pôr os Malmequeres na sepultura, flor de que ele tanto gostava.
Após o jantar a mãe teve um momento em que perdeu por completo o controle de si mesma: enquanto os três víamos na TV um daqueles concursos de “cultura geral”, entrou pela janela aberta uma borboleta amarela. Sem que nada o fizesse esperar levantou-se repentinamente, correu para pobre insecto e como se de um ente querido se tratasse, deu vivas e graças a Deus, lacrimejou e de braços abertos e cabeça levantada, lá foi ela a correr casa a fora. Depois de alguns momentos de estupefacção, eu e o meu pai decidimos que aquilo estava a ser barulho a mais para uma casa de pessoas normais. “É o teu irmão, o teu irmão!!!”, “Mãe…”, “Que é que te deu, mulher?”, “Calma, calma, eu ponho o bicho lá fora.”
Nessa noite estriei um pijama novo, azul, a cor favorita do meu irmão primogénito (alguma vez alguém lá de casa me perguntou qual a minha cor favorita?).

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço ainda houve tempo para uma última fotografia de família. Os meus pais e eu, com o retrato do AS ao peito da minha mãe, junto ao coração. Seguimos a pé para a estação de camionagem, as despedidas habituais e um “até breve”, menos quente que aquela manhã de Verão.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

andando (1/2)

Agora que olho para trás, já só consigo relembrar aquele dia de Verão como algo distante, como se alguém me tivesse contado a história vivida por outrem. Posso-vos assegurar que estive lá, só não tenho é a noção da dor.
O filho primogénito dos meus pais tinha morrido num infeliz acaso: para socorrer um amigo de infância da força das ondas, deixou-se levar pelo mar bravio, na praia a poucos passos da nossa casa. O corpo foi resgatado horas depois, na preia-mar, quase desfeito.
Eles jamais recuperaram do choque e desde então passámos a fazer uma reunião de família para que a memória de AS fosse preservada, entre nós.
Para mim, as recordações de AS eram meramente circunstâncias, se é verdade que nos deixávamos levar pelo entusiasmo das brincadeiras de rapazes, a diferença de idades, levou a que com o passar dos anos nos fossemos tornando estranhos um para o outro. A medicina fascinava-o, convicto das ideias do nosso Pai, AS dedicava-se com afinco à preparação dos exames escolares e a aprofundar o seu estudo e conhecimento do corpo humano. Era um exemplo, aos olhos do meu pai ele era perfeito, iria perpetuar o prestígio de um apelido, exercendo um ofício ao alcance de poucos.
Eu pelo contrário, rebelei-me e cursei Património e Restauro. Era constantemente posto em causa pelo pater famílias. Ridicularizado. “É mexendo em pedras velhas e recompondo móveis usados que vais arranjar sustento?”, perguntava ele.
A minha mãe, coitada, filha de camponeses, tinha somente a escolaridade básica. Viu no casamento com o senhor Doutor um escape aos males da miséria da vida rural de outrora. Depois de se tornar a esposa do jovem médico de bairro, foi-se tornando numa exemplar dona-de-casa, e a cozinha era o seu lugar eleição. Acima de tudo obedecia ao marido, sem o importunar com questões menores do dia-a-dia.

(continua...)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

muito lá de casa

Acordei ao som de um barulho estranho, seco. A tua caixa, a tua caixa. Num impulso, saí do quarto mal desperto, num salto cheguei à sala. O gato, em plena acção, fazia deslizar pelo chão o precioso objecto. Eu, guardião improvável de memórias alheias: daquelas partilhadas em noites improváveis, perito em levantar nevoeiros em dias radiosos, barqueiro nas águas de fogo, estava derrotado. O jogo inocente de um felino (Felis silvestris catus) destruiu toda a poesia que um sonho pode conter.
E nunca mais te vi.