quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Música: concerto de Ana Deus, 6 de Março de 2010

6 Março

23:00

Villa Community
Avenida dos Aliados, 66 - Porto

Concerto Performativo para a comemoração de um ano de constituição da Associação Terra na Boca.
DONA CHICA é uma senhora de idade, apreciadora de boa mesa, boa cama, belas festas e de música de dança. Os seus gostos e desejos para o "futuro" são revelados por cima de batidas fortes e rifs de guitarras roucas. "Eu que sou velha quero a coisa mais tenra do mundo..." canta ela em "Teoria dos contrastes". Na parede, em vídeo, projectam-se corpos dançantes, de idosos "gaiteiros", de todos os tempos. voz Ana Deus programações João Alves vídeo Sofia Lomba

Preço 10€ * 15€ **

Inclui - Oferta de inscrição de Amigo Terra na Boca, no valor de 20€, para usufruir no primeiro quadrimestre ou como desconto na jóia anual (excepto nos espectáculos MALACORPO e Solo Lesson Show no Teatro Helena Sá e Costa); - Porto de Honra; - Sorteio de um Curso de Chacras.

* Transferência bancária até 28 de Fevereiro com envio do compro-vativo e do seu BI digitalizado, com o respectivo contacto para: terranaboca@gmail.com

** Transferência bancária de 1 a 5 de Março com envio do compro-vativo e do seu BI digitalizado, com o respectivo contacto para: terranaboca@gmail.com. No dia 6 de Março o bilhete poderá ser adquirido no próprio local a partir das 19h

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

o mais feio de todos

Já perdi a conta às vezes que me aturaste. Em que ao ouvires a minha voz apagada disseste “isso não é nada, rapaz”. Do trabalho aos namoros, tenho dias que só me apetece mandar tudo à merda, família, amigos, tudo positivamente. É nessas ocasiões que qual messias, o telefone toca e lá vens tu com uma palavra ponderada, esclarecido como poucos, o homem que também puxa a minha carroça para a frente.

Miguel, ainda te lembras do dia em que começámos a crescer juntos?, eu tenho isso bem presente: Era Julho, apareceste em Lisboa com o teu pai e ficaste lá em casa, mesmo depois dele ter regressado a Odemira, a partilhar as tuas férias comigo. Jogámos à bola juntos, andámos na rua a derrotar ao keips todos os ranhosos da Feliciano de Sousa (este gajo foi um sindicalista dos inícios do século XX, sabias?) e fomos de certeza à bola, ver o Atlético levar no pêlo - uns anos depois destes primeiros episódios, estivemos no velho estádio da luz a assistir a uma partida de futebol da Taça de Portugal, em que o Benfica recebeu e venceu, após prolongamento o Guimarães: o que chovia, como nós ficámos encharcados. Que vitória!

E os projectos por realizar, meu bom rapaz?! Espero escrever contigo, filmar contigo, no fundo divertir-me e desfrutar da tua companhia. Se conheço o Algarve e tenho hoje em dia uma boa relação com o sítio, devo-o a ti. Desde a tua mudança lá para baixo, que faço questão de, quase religiosamente, ir até São Brás fazer-te uma visita. Começo a movimentar-me à vontade por Tavira, Faro, Loulé. Tudo porque tu estás aí, só por isso.

Desculpa não ter estado em Cádis para o casamento. Foi de repente, tão inesperado, teria de pôr algo formal, para não fazer má figura. Estar fora do meu ambiente. Custou-me ficar no Porto, saber só dos pormenores telegráficos da cerimónia. Merecias o meu esforço.

Uma última coisa, vejo-te como um irmão, tremo de poder perder-te um dia. Partires para outro lugar. Nos teus fins-de-semana em Espanha, desejo sempre que regresses sem sobressaltos. Se um dia decidires a tua vida por lá, como é que eu fico? Provavelmente mais sozinho, com menos paciência e amor para dar a quem esteja comigo. Sabes, mesmo com alguma diferença de idade, somos muito parecidos, quase iguais: cabelo grisalho, olhos verdes… e claro, o sangue que corre, AHR negativo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

workshop Lúcia David à volta dos livros, na livraria Index


Este workshop é dirigido a alunos do ensino secundário e adultos com interesses em artes plásticas e tem como intenção uma primeira abordagem ao mundo de Bookarts (Livros de Artista).


Pretende-se que os participantes, ao olhar para um livro, possam reconhecer e identificar os seus componentes, repensar os conteúdos, reconstruir a forma.


DATAS

18 FEV – 5ª feira - 14:30 às 17:30. Público-alvo: adulto.

Pagamento: 15 € por participante - a sessão realiza-se com um número minímo de 15 participantes.



19 FEV – 6ª feira

SESSÃO – 10:00 às 13:00 e das 14:30 às 17:30. Público-alvo: adulto.

Pagamento: 30 € por participante - a sessão realiza-se com um número minímo de 15 participantes.



NOTA:

A inscrição poderá ser realizada via correio ou correio electrónico.

No dia 18 de Fevereiro de manhã realiza-se uma sessão para o público-escolar. Para mais informações, por favor, contactar: geral@indexlivraria.com

agridoce

Ainda respiras? Não te sinto a pulsação. Para mim é quase como se tivesses morrido. O teu corpo está frio. Que horror! não te sabes agasalhar antes de te deitares aqui comigo? Não sou nenhuma botija de água quente, rapariga. Ter de dormir com um cadáver (ausente) é algo desagradável. Nem o teu cheiro fica nos lençóis. Qualquer dia deita-se aqui outra moça, igualmente friorenta, que monopolize a roupa de cama e eu ficarei impotente para travar o súbito das nossas memórias.
Prefiro que a minha futura seja carinhosa, tu eras brutinha, em vez de me amaciares a carne, tonificares a pele com meiguice, desatavas apelar ao repentismo da aeróbica e fazias de mim um joguete entre a cabeceira e os pés da cama. Bem podia espernear ou gemer aos teus ouvidos, que a menina nada de ser cooperante ou compreensiva. Um abuso. Deixei mesmo de nadar aos Sábados de manhã por tua causa: explica-me, onde e como poderia eu encontrar forças suficientes para vencer uma piscina olímpica depois de uma noite de pinotes, cambalhotas e flic-flacs à retaguarda?! Querida, ponderei abandonar a leitura compulsiva de romances e dedicar-me em exclusivo à transformação de mim mesmo num atleta de alta competição. Trocaria a Praça pelo Centro de Alto Rendimento do Jamor e teria por companhia tenistas ou halterofilistas. Tudo em prol do nosso bem-estar, só para corresponder aos índices de massa gorda e massa magra, descritos no teu Manual de homem perfeito. Na minha dieta constariam as proteínas, os hidratos de carbono, as gorduras, as fibras, o cálcio, outros minerais, não esquecendo as vitaminas.
E como seria belo, saudável e feliz (contigo).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

uns breves minutos com o david

do pai

Pai, o que nós podíamos ter pescado, Pai. Aproveitar os Verões no Alentejo e pescar o tempo inteiro; o rio Mira, na Casa Branca puxava-nos. Era sairmos da casa da Avó, sozinhos, sem a Mãe, nem o Paulo - que já nem passava as férias connosco - e zarparmos. Estávamos só a 10 minutos de caminho, Pai. Tínhamos o carro às ordens, ninguém nos incomodava, e lá iríamos nos para o pontão do braço de rio.
Por mim teria abdicado de todas as manhãs de praia: como eu detestava acordar ao som das mulheres da casa, vestir os calções de banho, uma t-shirt e por uns sapatos e ir para Milfontes, Pai. Eu era a única das crianças da casa a resmungar com toda aquela azafama, injusta e injustificada – o primo Miguel por vezes alinhava no boicote, mas só às vezes, e só uma gripe ou o nevoeiro de S. Luís impedia que gastássemos tanta gasolina e energia para estarmos à beira-mar. Tu, mesmo lá pescavas, sozinho, ias para as rochas, lembras-te? Sim, as rochas, as das praias das Furnas. Eu receava subir ao alto contigo, tinha medo de perder o equilíbrio e cair: eu sei que me darias a mão, Pai, mas mesmo assim o medo iria dominar-me por dentro e por fora: e se acontecesse uma desgraça?, eu caído inanimado, no chão, todos os banhistas à minha volta e tu de olhar incrédulo para o destino – como seria?
Muito direitinho, ficava cá em baixo, a brincar com o disco do Miguel ou a jogar às cartas com a Ana e a Lena, a contar as horas, receoso de que não mais aparecesses para nos recolher de volta. A Mãe e as minhas tias eram umas chatas, não nos deixavam estar mais do que cinco minutos ao Sol - não que eu gostasse -, e também agarravam-nos sempre a mão quando íamos à água, como se faz com os meninos pequenos. Um terror, Pai!

Agora está a ficar tarde, Pai. Tu estás mais velho e mais companheiro. Passas o tempo longe de mim, entre Lisboa e S. Luís, com a Mãe, para cima e para baixo – Quantos quilómetros fizeram vocês nestes últimos meses, depois da nova casa estar pronta? “Lá em baixo a partir da Primavera está-se melhor, filho”. Atendes muitas vezes o telefone e dizes-me breves palavras bonitas, preocupadas; eu aqui estou para te ouvir, ainda que por instantes, Pai.
Para mim serás sempre forte, mesmo quando estás doente, com o pé inchado por causa do ácido úrico ou no Inverno quando passas alguns dias a andar por casa, com o roupão vestido por cima do pijama, a tomar Paracetamol e atacado dos brônquios – tu que em criança andaste por caminhos de cabra, com lobos a morderem-te os calcanhares, a caminho das minas de volfrâmio.
Mas eu tenho fraquezas, Pai. Quando os teus irmãos morreram, abracei-te mas não consegui dizer palavra: custou-me a mim tanto como a ti - não tanto por eles mas por a tua dor: as minhas lágrimas eram por te ver momentaneamente triste, sem consolo. Pergunto-me, Que fiz por ti?
Podíamos pensar passear por Lisboa, ir até Alvalade ver o tio António e a tia Idalina, e o meu primo António Pedro se ele lá estivesse. Tu que trabalhaste nos táxis podias-me dizer os nomes daquelas ruas sem ser preciso olhar o mapa, falares-me de quem morou ali no antigo regime ou ficarmos a olhar as árvores da Avenida da Igreja. Mas não, Pai, agora quando passo o fim-de-semana em Alcântara fico por casa a ver televisão ou a ler, enquanto tu Pai, tratas das tuas coisas no quintal, vês telenovelas e concursos com a Mãe, ou vais à rua tomar café com os amigos.
Por dois ou três dias somos uma família quase completa, não fora o Paulo morar na Amadora com a Inês, a Joana e a Sílvia.

É verdade, com isto tudo esqueci-me da pesca, Pai, mas isso já não interessa para nada.