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A mostrar mensagens de Março, 2010

de pequenino

Ao contrário de outros, as minhas aulas de Educação Visual eram um pesadelo: o lápis impelia-me a encher a folha de cavalinho A4 de traços indefinidos, que só a muito custo, quiçá com a colaboração de um técnico de psicologia, se poderia aferir o significado.

Na pintura não me saí melhor, a palete de cores primárias, sempre à espera do processo dinâmico de construção de ambientes mais e mais complexos, cedo se decepcionava com o Eu “artista” - angustiava-me não conseguir expressar-me na tela vazia, de encher o mundo, que para mim era só aquela sala repleta de aspirantes à arte futura.

Confesso que escrever é para mim mais fácil, eu sei que as crianças começam por rabiscar no branco do papel, atabalhoadamente, sem desistir, a sua casa, a mãe, o pai, o irmão “mais” grande, o cão, o gato ou a galinha. A verdade é que desaprendi tudo isso. Logo que entrei para a escola, dediquei-me a desenhar letras como me tivessem a pedir para fazer um retrato. Ao longo dos anos, com o tique de apanha…

do vulcão

Lamento saber que teve uma vida infeliz, senhora Valdete.


Soube-o por si, e senti-me impotente para fazer qualquer coisa que fosse para alterar toda a sua tristeza, a raiva inerente ao seu discurso. Como pode alguém resistir tanto tempo à crueldade de um marido insensível ao amor do próximo e mesmo assim pensar que ainda quer ser feliz? O pulha castigava-a a si e ao menino pelo que me contou. Já não bastava entrar em casa com bafo a álcool, obrigá-la a pôr-se debaixo dele, contra vontade, e mesmo assim não deixava a pobre criança em paz. Fechar alguém num quarto escuro, empurrando até lá dentro aos berros é da tarimba dos verdugos. Fê-lo também consigo, quantas vezes? Um ror delas? Compreendo o sentimento de impontência.

Nem aos animais ele perdoava. Quantos terá ele abatido só por não fazerem o que lhes mandava? Muitos, muitos. Outros morriam porque sim, eram rafeiros decrépitos encontrados no monte e só serviam para o abate. Para tornar o cenário mais negro, incinerava os cadáveres …

a testemunha

Peço-te que por agora não chores. O diagnóstico do médico não é assim tão mau. Escuta, a inflamação no ouvido é minha, não tua. Por que é que não apertaste a mão ao senhor doutor? Ele foi solícito comigo, atento. Deixar alguém de mão estendida é falta de educação.


Pronto, eu cedo. Nas próximas semanas podes-me pôr as gotas, relembrar-me onde está o antibiótico, accionar o despertador para que a hora da medicação não fique esquecida. Sim, acordas comigo: vais encher o copo de água à cozinha e voltas para o meu lado. Tens razão, assim não preciso de me destapar, os meus pés não se arrepiam com o frio da tijoleira. Se o gato miar não te assustes, ele ainda não se habituou à tua presença, faz-lhe uma festa que ele volta a aninhar-se no sofá. Tranquilo.

Quando eu ficar bom prometo sair mais contigo, dar um passeio grande, demoramos o tempo que quiseres. Podemos ir aquela praceta do outro dia – chovia, nós abrigámo-nos e comemos um éclair cada um. Mesmo assim o teu era maior do que o meu. …

:2

Confiamos os dois. Prontos a correr alinhados desde o tiro de partida. A ideia de paixão nasce da fuga aos dias sós. É a alegria nas mortais palavras. Expande-se a promessa do amor, crença que perdura no melhor fim. Quero conhecer as marcas do teu corpo, liso ou rugoso, examinar-te a alma, fundir a felicidade que há em nós. Vou querer roubar-te para mim, viajar no silêncio para regressar mais tarde. Para assim ficarmos depois.