segunda-feira, 26 de abril de 2010

da resposta

A ilusão da infância, aí a vida é vivida em trânsito, nada conta como definitivo. Nem o dicionário menciona o termo… que estranho, depois os anos passam, de forma suave e enganadora. Olhamos para trás e nem uma cassete VHS desmente o passado. Por norma, achamos que não há nada a fazer no revolver do baú das recordações. Digo que andamos todos enganados, podemos mudar, acrescentar cortar a H-I-S-T-Ó-R-I-A. Afinal a escrita existe também para isso, aprender a re-contar é uma virtude.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

da esgrima

Podias-me ter desferido o golpe de misericórdia, teria bastado esticares o braço, desembainhares o teu sabre e de um só golpe ter-me-ias visto cair aos teus pés, esvaído em sangue. Decepcionaste os transeuntes, aquela gente que de forma desatenta assistiu à nossa troca de olhares. Mereciam um espectáculo, a sério. Até posso concordar contigo que matar alguém por tão pouco implica uma condenação longa por detrás das grades, mas repara, eu abandonaria em definitivo a galeria dos teus pretensos namorados perfeitos, juntando-me à ala dos seres fantasmagóricos um dia caídos em desgraça.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

da hera

Um fundo azulado, tranquilo, enquadram uma planta, aparentemente forte, plena de vitalidade a julgar pelo ramo. E no entanto ela espera, murcha ou envergonhada. A mão por debaixo, na esperança de uma cura, aguarda, quem sabe, amparar a queda das folhas sem vida, caducas, que renovarão a sede do rejuvenescimento, cíclico na natureza e bebido a cada instante por cada um de nós, mortais.
Se no entanto nos contaminar o olhar da perspectiva do mal humano, tudo muda: a respiração ofegante da pobre criatura vegetal, enfrenta num rompante a gula perniciosa da extensão do braço humano. A nudez exposta dos rebentos, criaturas lactantes presas às ramificações de sua mãe, enfrentam expectantes a dor latente do colo alheio. E a desgraça submerge a cena. Não nos resta mais nada, senão o uivo perene da natureza em flor.