terça-feira, 25 de maio de 2010

ainda em cena: recomendado

Chão Concreto
apresenta

NA SALA DO TEATRO LATINO
13 a 30 de Maio - Quarta a Domingo

“Noites Brancas”
encenação:Rodrigo Santos

interpretação: Ivo Bastos, Nuno Preto

21h45m

“O Negativo da Voz”
encenação: Rodrigo Santos

interpretação: Tânia Dinis

23h00m

segunda-feira, 24 de maio de 2010

do oriente

Vou pedir-lhe uma última vez, pare de me azucrinar a cabeça com esse maldito acordeão. Estamos no Metro, o som ressoa por tudo o que é sítio. Os passageiros não lhe ligam pevas e você insiste, como tivesse saído laureado do Conservatório de Música. A caixa de esmolas que a criancinha traz na mão continua vazia, o senhor nem por um momento hesita e pressiona com mais força as teclas do instrumento. Não tenho dúvidas, esta história vai acabar mal, para si e para quem o acompanha. Se quer que lhe diga, e já que não tem nada de melhor para fazer, podia dedicar-se a apreciar a grandiosidade da linha Vermelha, das monumentais Gares. Sabe, quando eu era miúdo os percursos do Metropolitano de Lisboa resumiam-se a um caminho em forma de Y. Como isto cresceu. Por mim passaram mais de vinte anos, tempo bem aproveitado para a retroescavadoras esventrarem a cidade de uma ponta a outra. Se algum dia eu imaginei poder vir passear a Marvila para ter betão e terra como paisagem?! Antigamente isto aqui era só armazéns, máquinas de extracção de areia e sucata sem dono. Bom para jogar à bola era ali a caminho de Belém, por detrás da Rua da Junqueira, num cantinho de erva verde, por debaixo dos pilares da Ponte 25 de Abril. Agora já ninguém se atreve a fazer o mesmo – levantaram lá uns prédios de luxos do arquitecto Valssassina: acabou-se o jogo, os miúdos e as tardes quentes de papo para o ar.

Os bolsos de fora ainda sem um tostão, meia dúzia de carruagens percorridas, sem quebrar. E já estamos a chegar ao terminal ferroviário. O senhor não se cala.
Arrepiante, seria se ali para Chelas tivesse havido festa da grossa: um grupinho de rufias por aqui adentro, carteiras dos senhores passageiros para cá, sem choro fingido, e dá cá as moedinhas, ó animador de subterrâneos. Felizmente para todos, é pouco provável que haja surpresas desagradáveis nas duas paragens que restam. A mim espera-me uma tarde de compras, um passeio pela beira Tejo e um sumo de fruta para refrescar. Quanto a si, não sei, mas talvez o silêncio lhe viesse a calhar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

do antónio

Tem de reconhecer, meu velho, a sua figura cria uma certa repugnância a quem priva consigo. Parece-lhe normal que com sessenta anos se vista e comporte como uma senhora? Caramba, você ainda é casado, tem uma mulher a aquecer-lhe a cama, um filho malcriado, drogado ou pedinte, não interessa, que percorre Lisboa na pedincha de migalhas para uma dose. Bem sei que ganha para si, o suficiente para alimentar a boca da mãe, os vícios do filho, o almoço de domingo em família. Pense numa coisa, cantar à noite numa cave esconsa, repleta de homens salivantes, alheios à digna arte do playback, é tudo menos próprio para um si, homem de deus.
Soraia, Soraia, eu não posso identificá-lo dessa forma, estamos num hospital público, não num circo de aberrações. Dê-me um nome próprio, apelido. Já me dou por satisfeito, senhor… vá, vá, pare com os enjoos, não me vomite a secretária, a medicação não o impele para tamanha fantochada, esses tremeliques são um truque fácil para se alhear da consulta. É a minha bata branca que o assusta? A sério, deixe-se de coisas, o fumo do meu cigarro nem sequer está a ir na sua direcção. Nunca nenhum paciente me pediu para me abster de puxar umas quantas baforadas.
Sente-se. Conte-me, por que é que começou a comportar-se como esposa da sua esposa…. Pode alguém despertar assim tão tarde para essa estranha forma de vida? Quer dizer, trabalha anos a fio como serralheiro, um lindo dia acorda virado do avesso e pronto: transformista dos pés à cabeça, guarda-roupa próprio, lábios delineados a silicone, sem se questionar? Um trabalho decente pelo cano abaixo e vamos lá passar as noites a encarnar as Madonnas ou a Tina Turners deste mundo… Uma má disposição que começa a vir estômago acima, tolda-lhe o pensamento e olha lá que há Soraia desperta em mim?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

do leste

Ficaste com um ares de desgraçada, nesse esgar de dor perpétua, sabias?
Esqueces-te do que disse no nosso primeiro encontro, tu és bonita, bonita a valer. Teres-me preparado esta surpresa nem parece teu. Como pudeste tu andar tão animada por estes dias. Ontem, anteontem, antes e antes de ontem, não serei exagerado se afirmasse que no último mês da nossa vida tivesse deixado de ver essa tua expressão de felicidade, a contaminar toda a gente com histórias mirabolantes, plenas de tudo de bom que trazias contigo – até eu, que recuso estados de alegria inebriantes, me sentia diferente.
Que gozo me deram aqueles passeios, da praia ao campo, sem itinerário definido. Aventura é aventura, Querido, se não gostas do imprevisto, habitua-te. E eu habituei-me. Em troca pedias-me que te falasse das serras, dos rios, do lugar, deste ou daquele escritor que por lá tinha passado. Se te fosse responder a tudo com seriedade e rigor, quase teria de transportar uma biblioteca itinerante na bagageira do carro. Enquanto não me mandavas calar, eu inventava, inventava mesmo muito, pormenores, características… tanta coisa; desde que tu te levasses pela narrativa. São inumeráveis as vezes que adormeceste colada a mim: a culpa é da tua voz suave, bem colocada, com timbre de embalar criancinhas e raparigas incautas como eu, atiravas divertida. E como aprendias depressa os disparates que te transmitia, não me lembro de uma única ocasião que ao repetirmos o passeio, não tenhas desfiado todo o meu guião de circunstância. Imitavas a cadência das palavras, carregavas no tom de voz feito homem e pronto, e prosseguias sem pausas. Estavas nas tuas sete quintas. O início como o fim pautado por uma sonora gargalhada.

É com o coração destroçado que te acuso. Porquê isto? Porquê assim sem pré-aviso? O voo janela fora que arriscaste jamais poderia contrariar a lei da gravidade. Nunca houve ninguém, em lugar nenhum, que saísse vivo desse raro impulso de libertação extrema. Foste egoísta demais.
No mínimo esperava uma longa e singular carta de amor, a servir de alerta. Nada de nada, nem mesmo o desafio: Depois vai lá ter comigo, Amor. Sem pressa!

terça-feira, 4 de maio de 2010

não caias

blog do dia

http://tempocontado.blogspot.com/

divulgação: workshop dramaturgia tribal II

Dramaturgia Tribal II - Laboratório de Exploração da Imaginação Simbólica - A Metamorfose com Jorge Palinhos

22, 23, 29 e 30 MAIO
14:30-19:30 (20 horas)
Galeria de Paris
Rua das Galerias de Paris, 56 - Porto
Preço: 75€. Amigo Terra na Boca: 67,50€
Mínimo: 8 pessoas. Máximo: 16


A metamorfose é o princípio dinâmico da criação, que rege o nascimento e a morte, a máscara e a transformação. É, por isso, o conceito-central de grande parte dos mitos e também de grande parte das histórias que conhecemos e contamos. Após a boa recepção do primeiro workshop de Dramaturgia Tribal, propõe-se agora este laboratório que, partindo da exploração das imagens, símbolos, ritos e mitos que conhecemos, permitirá aos participantes desenvolver e aprofundar histórias em torno da ideia de transformação e auto-conhecimento.Os textos resultantes deste laboratório deverão ser transformados num espectáculo a apresentar até ao final do ano.

Público-alvo: Estudantes e profissionais de teatro e todos os interessados em escrita criativa e dramática.

Nota: Os candidatos deverão trazer um texto seu, narrativo ou dramático, para ser alvo de trabalho durante o laboratório

Inscrição até 16 MAIO
mais informações, aqui:
http://terranaboca-associaocultural.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de maio de 2010

da mexicana

Deixa-me que te diga, as almas penadas que trazes para casa contaminam o ar que partilhamos. Eu sei que a tua profissão passa por lidar com mortos, corpos deitados em marquesas, sem defesa possível perante a curiosidade do bisturi e da profundidade analítica da medicina legal. Não bastava termos um assassino na cidade a expandir o terror sobre quem sai à rua e chegas tu, leve e fresca ao fim do dia, no à vontade de um qualquer assunto corriqueiro, a falares-me de uma, duas, três mulheres feitas cadáver, dissecadas no teu laboratório. Do que morreram, como as mataram, a cor da pele ou o tom desmaiado dos lábios. Não quero saber, não quero mesmo. Sou um tipo sem pretensões a ser elevado a herói nacional, não pretendo entrar na cabeça desse maníaco que por um qualquer descontrole emocional mata dezenas de raparigas, agarrá-lo e entregar o espécime às autoridades. Por acaso vês-me como representante das forças de segurança? Protector de vítimas indefesas? Eu só te escuto, no limite, dou opinião sobre os relatórios técnicos prévios que me apresentas. Estou farto de tantas descrições mórbidas, de que todas elas podiam estar a viver a sua vida, o seu emprego, a sua família.

Desiste de me arrastar para a agonia da apresentação formal aos que já não habitam o mundo dos vivos. Pára de derramar o sangue dos espectros no chão da nossa casa.