quinta-feira, 6 de outubro de 2011

dos trapos

Que desconforto! A dor de cabeça miudinha, deu lugar à estranheza e ao desespero. Ontem, foi domingo, certo? Hoje, segunda-feira… Muito bem, se assim é como é que explicam que aos 85 anos eu possa ter adormecido numa casa num dia e tenha acordado numa outra na manhã seguinte? Julgar-me-ia louca, não fora a dificuldade como caminho, mesmo num chão bem posto e macio como o do meu quarto, sala, cozinha e casa-de-banho. As obras custaram-me anos de reforma. O senhor Joaquim, um homem muito honesto e trabalhador que conheço desde moço, cumpriu tudo o que lhe pedi. Em poucos meses, quase sem dar por isso, pôs-me tudo novo: trocou o papel parede por tinta rosa velho, trocou o soalho por tacos envernizados cor de pinho, os móveis, esses, continuam os mesmos, sólidos, à antiga à portuguesa. Mas, como dizia, de um dia para o outro, sinto que não estou no sítio onde pertenço, mas longe da minha casa.

É tudo tão diferente, tão pouco parecido com o que é meu, que não tenho dúvidas, eu não pertenço aqui. Tanta agitação, tanto cheiro a velho, a velhos como eu.
A meio da noite acordei estremunhada com o murmúrio sumido de alguém por debaixo de lençóis e cobertores, numa cama desengonçada, que chiava tal a tremedeira do meu companheiro de quarto – companheiro de quarto? então que vem a ser isto, faça o favor de se calar, seja lá quem for… o pior veio depois, estava eu embalada para mais um farrapo de sono e ouço uma estridente campainha para lá da porta, passos apressados e de repente, entra apressadamente uma senhora vestida de bata branca (seria enfermeira?) no meu quarto. “Vá, abra a goela, abra… é um comprimidinho, só um, isso passa, tem de passar”. Nada, os gestos descontrolados deram lugar a espasmos, a impaciência da mulher transformou-se em histerismo e passado um tempo, que não sei precisar, tinha um grupo de gente ágil e decidida na acção, a rodearem o moribundo, a pô-lo numa marquesa e depressa dali para fora que o caso é urgente.
A manhã corre lenta para uma cabeça à deriva como a minha, eu a velha do sono leve, sinto as horas a passar sem a mínima percepção do que me rodeia.
Vejo gente? vejo. À minha frente há homens com cartas na mão, concentrados no gesto do parceiro, no destino posto na mesa de tabuleiro verde; à parte, ao fundo da sala, um grupo de mulheres, tricotam novelos furta-cores, de rosto fechado, quase sem levantar a cabeça das agulhas e da lã.
Se a minha disposição fosse outra, até podia pensar juntar-me a uns ou a outros, nem que fosse para me distrair e matar o tempo.
Assim, zonza e já com a barriga a pedir sustento, vou chamar alguém para me levar a casa – nova, arranjadinha e ao meu gosto.