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Berg e Clarissa

- Ainda aqui fora?
- Ainda aqui!
- Não vais dormir?
- Por agora não!
- Que procuras?
- Isso não interessa.
- És minha amiga?
- Não posso ter amigos.
- Não gostas de ninguém?
- Não sei o que é gostar.

Enlaçamos as mãos, contranatura. Eu hesitante, ele convicto que teria companhia por uma noite. Abriu a porta do prédio, segui-lhe os passos (porquê?); subimos as escadas, a meio parou, fixou em mim o olhar, declinei, penso que declinei, com um manear de cabeça qualquer intenção da parte dele. Entrou em casa, parei na soleira da porta, estarrecida.

- Não entras?
- Não!
- Entra.
- Não.
- Não te apetece?
- Não posso.

Arrastou-me para dentro, resisti quanto pude, depois os músculos cederam. Não podia mais. As náuseas, as palpitações no coração. «Socorro». O sangue jorrou-me por todos os poros. Pensei que a minha vida acabasse ali, me transformasse num animal acossado, abatido pelo silêncio do companheiro de circunstância. Sem forças, entre o desmaio iminente ouvi um quase sumido «entra, podes entrar».

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