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andando (1/2)

Agora que olho para trás, já só consigo relembrar aquele dia de Verão como algo distante, como se alguém me tivesse contado a história vivida por outrem. Posso-vos assegurar que estive lá, só não tenho é a noção da dor.
O filho primogénito dos meus pais tinha morrido num infeliz acaso: para socorrer um amigo de infância da força das ondas, deixou-se levar pelo mar bravio, na praia a poucos passos da nossa casa. O corpo foi resgatado horas depois, na preia-mar, quase desfeito.
Eles jamais recuperaram do choque e desde então passámos a fazer uma reunião de família para que a memória de AS fosse preservada, entre nós.
Para mim, as recordações de AS eram meramente circunstâncias, se é verdade que nos deixávamos levar pelo entusiasmo das brincadeiras de rapazes, a diferença de idades, levou a que com o passar dos anos nos fossemos tornando estranhos um para o outro. A medicina fascinava-o, convicto das ideias do nosso Pai, AS dedicava-se com afinco à preparação dos exames escolares e a aprofundar o seu estudo e conhecimento do corpo humano. Era um exemplo, aos olhos do meu pai ele era perfeito, iria perpetuar o prestígio de um apelido, exercendo um ofício ao alcance de poucos.
Eu pelo contrário, rebelei-me e cursei Património e Restauro. Era constantemente posto em causa pelo pater famílias. Ridicularizado. “É mexendo em pedras velhas e recompondo móveis usados que vais arranjar sustento?”, perguntava ele.
A minha mãe, coitada, filha de camponeses, tinha somente a escolaridade básica. Viu no casamento com o senhor Doutor um escape aos males da miséria da vida rural de outrora. Depois de se tornar a esposa do jovem médico de bairro, foi-se tornando numa exemplar dona-de-casa, e a cozinha era o seu lugar eleição. Acima de tudo obedecia ao marido, sem o importunar com questões menores do dia-a-dia.

(continua...)

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