Avançar para o conteúdo principal

da festividade

Deram-nos por baptismo o nome de João.
Eu, cresci nas ermas terras do Norte de Portugal, há muitos séculos
atrás; ele, cavalgou por terras longínquas, daquelas que nunca a
minha vista alcançou.
Fui um ser modesto, ajudei quem pude, como sabia, trabalhando nas
colheitas, amassando pão, apregoando bons conselhos a gente simples;
ele, calejado em retórica, afrontou o poder instituído. Herodes
tomou-o por inimigo, combateu-o no deserto, venerou-o no esquecimento.
Não lamento ter morrido eremita, longe de todos, deixado à minha
sorte, bebendo o eterno sono dos justos; ele, caiu às mãos de um rei
sequioso de sangue, guerreiro vingativo de uma filha caprichosa.
Partilhamos por uma noite de Junho a alegria do Porto, em festa. Dois
homens num mesmo corpo terreno, a folia de quem arrisca saltar
fogueiras, adornar a noite no cheiro do alho-porro e sabor a sardinha
assada. Em uníssono a música deambula rua a cima, rua abaixo.
Ultrapassamos ano após ano a idade infinita da celebração, relembrando
um ao outro o destino que nos uniu.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Domingo

dos trapos

Que desconforto! A dor de cabeça miudinha, deu lugar à estranheza e ao desespero. Ontem, foi domingo, certo? Hoje, segunda-feira… Muito bem, se assim é como é que explicam que aos 85 anos eu possa ter adormecido numa casa num dia e tenha acordado numa outra na manhã seguinte? Julgar-me-ia louca, não fora a dificuldade como caminho, mesmo num chão bem posto e macio como o do meu quarto, sala, cozinha e casa-de-banho. As obras custaram-me anos de reforma. O senhor Joaquim, um homem muito honesto e trabalhador que conheço desde moço, cumpriu tudo o que lhe pedi. Em poucos meses, quase sem dar por isso, pôs-me tudo novo: trocou o papel parede por tinta rosa velho, trocou o soalho por tacos envernizados cor de pinho, os móveis, esses, continuam os mesmos, sólidos, à antiga à portuguesa. Mas, como dizia, de um dia para o outro, sinto que não estou no sítio onde pertenço, mas longe da minha casa. É tudo tão diferente, tão pouco parecido com o que é meu, que não tenho dúvidas, eu não pertenç...

entre irmãos

Bruto, estúpido, cabrão de merda! As tuas mãos no meu pescoço quase que me estrangulavam. Senti-me com falta de ar, comecei a ficar primeiro vermelho, depois quase roxo e tu rias ininterruptamente, sem piedade nem comiseração pelo teu irmão mais novo. Se fui apanhado no parque de ténis a roubar bolas foi por tua culpa! Tu e os teus amigos é que queriam encher sacos e sacos delas. Novinhas em folha, daquelas ainda com muito pêlo, macias ao toque, duras e saltitonas. Não que saibam jogar alguma coisa de jeito. Vocês são fracotes, azelhas mesmo, mal conseguem fazer passar a bola de um lado para outro da rede mais do que duas vezes seguidas. Querem exibir-se para as miúdas, mostrarem o quanto são fortes, dignos de admiração e cobiça. Parvos, vocês são uns parvos, ouve o que te digo. Eu já me consegui aproximar do grupo das miúdas, escutei-lhes os desejos e sabes que mais, para elas tu e os teus amigos não passam daqueles gelados de Verão, daqueles que se compram só por não se ter dinh...