sexta-feira, 16 de setembro de 2011

da via panorâmica

A nossa casa é linda. Repara como aqui apertadinhos estamos tão bem um para o outro. Aqui tudo é teu e meu; nosso, nosso, quero eu dizer! Deixa-me ver, temos o lençol, este saco-cama velho e sujo, a roupa que trazemos no corpo e pronto. De resto nada, de mais nada.


Estendidos na relva, de papo para o ar, nem as paredes de uma velha casa em ruínas nos separam do trânsito e das pessoas. Por vezes, pelos menos para mim, o dia custa a passar: levantar-me todos os dias, percorrer um par de metros, parar em frente ao centro comercial e implorar pela misericórdia de quem entra e sai das lojas; cansa-me. De segunda a domingo – sempre, sempre na iminência de nem uma migalha ter para partilhar contigo – deixa-me triste, muito mesmo. Desculpa.

Sabes bem que o que nos faz andar nisto é o vício, a dependência de umas gramas de pó, para mim e para ti, em comunhão. Podíamos pensar em trabalhar como todos eles. Sim, a tempo inteiro, a fazer qualquer coisa. Vejo-me até a lavar escadas, a limpar a casa das senhoras ricas ou com a mania de que o são. Sei que não concordas comigo, raramente concordas; quando me ponho a imaginar uma vida normal mandas-me calar, puxas-me para ti e abafas-me contra o teu peito. Eu sou uma lingrinhas, e já só tenho pele e osso. Tu continuas alto e bonito, ainda emanas um certo ar de atleta, surfista talvez. Querido, escuta, eu não o digo por mal, mas se ao menos também me ajudasses a recolher umas moedas em vez de me ficares a controlar ao longe, a rezingar por eu não fazer mais dinheiro… qualquer dia, quando as pessoas deste bairro, deste shopping, se cansarem da minha cara morena e com as pústulas a permanecerem semanas a fio, pões-me numa esquina, numa rua, num beco, à espera de quem passa. Depois, como sempre, hás-de exigir que te renda uns trocos, os suficientes para matar a fome das veias.

Não é querer ser desmancha-prazeres, mas esta casa precisa de levar uma volta.

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