terça-feira, 6 de janeiro de 2015

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Aparição


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

dos trapos

Que desconforto! A dor de cabeça miudinha, deu lugar à estranheza e ao desespero. Ontem, foi domingo, certo? Hoje, segunda-feira… Muito bem, se assim é como é que explicam que aos 85 anos eu possa ter adormecido numa casa num dia e tenha acordado numa outra na manhã seguinte? Julgar-me-ia louca, não fora a dificuldade como caminho, mesmo num chão bem posto e macio como o do meu quarto, sala, cozinha e casa-de-banho. As obras custaram-me anos de reforma. O senhor Joaquim, um homem muito honesto e trabalhador que conheço desde moço, cumpriu tudo o que lhe pedi. Em poucos meses, quase sem dar por isso, pôs-me tudo novo: trocou o papel parede por tinta rosa velho, trocou o soalho por tacos envernizados cor de pinho, os móveis, esses, continuam os mesmos, sólidos, à antiga à portuguesa. Mas, como dizia, de um dia para o outro, sinto que não estou no sítio onde pertenço, mas longe da minha casa.

É tudo tão diferente, tão pouco parecido com o que é meu, que não tenho dúvidas, eu não pertenço aqui. Tanta agitação, tanto cheiro a velho, a velhos como eu.
A meio da noite acordei estremunhada com o murmúrio sumido de alguém por debaixo de lençóis e cobertores, numa cama desengonçada, que chiava tal a tremedeira do meu companheiro de quarto – companheiro de quarto? então que vem a ser isto, faça o favor de se calar, seja lá quem for… o pior veio depois, estava eu embalada para mais um farrapo de sono e ouço uma estridente campainha para lá da porta, passos apressados e de repente, entra apressadamente uma senhora vestida de bata branca (seria enfermeira?) no meu quarto. “Vá, abra a goela, abra… é um comprimidinho, só um, isso passa, tem de passar”. Nada, os gestos descontrolados deram lugar a espasmos, a impaciência da mulher transformou-se em histerismo e passado um tempo, que não sei precisar, tinha um grupo de gente ágil e decidida na acção, a rodearem o moribundo, a pô-lo numa marquesa e depressa dali para fora que o caso é urgente.
A manhã corre lenta para uma cabeça à deriva como a minha, eu a velha do sono leve, sinto as horas a passar sem a mínima percepção do que me rodeia.
Vejo gente? vejo. À minha frente há homens com cartas na mão, concentrados no gesto do parceiro, no destino posto na mesa de tabuleiro verde; à parte, ao fundo da sala, um grupo de mulheres, tricotam novelos furta-cores, de rosto fechado, quase sem levantar a cabeça das agulhas e da lã.
Se a minha disposição fosse outra, até podia pensar juntar-me a uns ou a outros, nem que fosse para me distrair e matar o tempo.
Assim, zonza e já com a barriga a pedir sustento, vou chamar alguém para me levar a casa – nova, arranjadinha e ao meu gosto.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

da via panorâmica

A nossa casa é linda. Repara como aqui apertadinhos estamos tão bem um para o outro. Aqui tudo é teu e meu; nosso, nosso, quero eu dizer! Deixa-me ver, temos o lençol, este saco-cama velho e sujo, a roupa que trazemos no corpo e pronto. De resto nada, de mais nada.


Estendidos na relva, de papo para o ar, nem as paredes de uma velha casa em ruínas nos separam do trânsito e das pessoas. Por vezes, pelos menos para mim, o dia custa a passar: levantar-me todos os dias, percorrer um par de metros, parar em frente ao centro comercial e implorar pela misericórdia de quem entra e sai das lojas; cansa-me. De segunda a domingo – sempre, sempre na iminência de nem uma migalha ter para partilhar contigo – deixa-me triste, muito mesmo. Desculpa.

Sabes bem que o que nos faz andar nisto é o vício, a dependência de umas gramas de pó, para mim e para ti, em comunhão. Podíamos pensar em trabalhar como todos eles. Sim, a tempo inteiro, a fazer qualquer coisa. Vejo-me até a lavar escadas, a limpar a casa das senhoras ricas ou com a mania de que o são. Sei que não concordas comigo, raramente concordas; quando me ponho a imaginar uma vida normal mandas-me calar, puxas-me para ti e abafas-me contra o teu peito. Eu sou uma lingrinhas, e já só tenho pele e osso. Tu continuas alto e bonito, ainda emanas um certo ar de atleta, surfista talvez. Querido, escuta, eu não o digo por mal, mas se ao menos também me ajudasses a recolher umas moedas em vez de me ficares a controlar ao longe, a rezingar por eu não fazer mais dinheiro… qualquer dia, quando as pessoas deste bairro, deste shopping, se cansarem da minha cara morena e com as pústulas a permanecerem semanas a fio, pões-me numa esquina, numa rua, num beco, à espera de quem passa. Depois, como sempre, hás-de exigir que te renda uns trocos, os suficientes para matar a fome das veias.

Não é querer ser desmancha-prazeres, mas esta casa precisa de levar uma volta.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

da frieza

“Eu não vou morrer”.
A esta distância, a frase soa estranha na minha cabeça. Claro que tu irias morrer – tu, eu, qualquer pessoa que habita este mundo, mais cedo ou mais tarde morre.
A tua decepção é a tragédia de qualquer ser humano ao longo de uma vida e, deixa-me que te diga, agora que me escutas de pálpebras cerradas, pôr uma corda ao pescoço não resolveu nada da existência de quem te rodeia. Senão vejamos: tu sempre foste um rufia de bairro desde miúdo, a entrar à bruta nas brincadeiras de quem não te queria por perto, a comer fora de horas, sempre a berrares com uma tia que te criou na imundice e no cheiro a podre que a tua roupa emanava. Peixe, tu cheiravas a peixe, era por isso que todos nós, ainda miúdos, te chamávamos assim. Não prestavas para nada, nem para jogar à bola, nem na cumplicidade de uma conversa inocente, nada. Depois, sabe deus como, namoraste uma rapariga que era uma amostra de gente, fraca de cabeça, viciada como tu na ignorância e no álcool e nos cigarros. Casaram.
Uns anos mais tarde, já tu amanhavas motas e automóveis à porta de casa, a mesma onde foste criado, e lá te tornaste pai. Que comovente, a irresponsabilidade de dois pobretanas não tem limites. Um, dois, três, quatro. Ena, tantos inocentes dados ao mundo.
As contas lá te pesavam nos dias, cada vez mais, a esposa sem fazer a ponta de um chavo, tu alapado à porta de casa a fazer roncar os motores condenados e na maior parte do tempo a coçar a barriga; os putos rua acima, rua abaixo, andrajosos, apatetados, ruins como aprendizes do demo. Assim a história não podia acabar bem, nada bem mesmo. Discussões com a mulher, um copo aqui, um charro acolá e pronto, começaste a cavar o teu fim antecipado.
Já sozinho aguentaste um par de meses sem ires ao tapete. Depois, foi tudo muito rápido, uma crise de raiva, um lar virado do avesso, o choro imparável dos putos e toca de fazer a primeira tentativa de suicídio. A conversa fiada dos psiquiatras deixou-te atónito, tanta palavra cara para descrever uma depressão, tanto medicamento para ganhar pó na mesinha de cabeceira, tanto recurso desperdiçado num bandido, digo eu.
Objectivo atingido, um mês passado estavas tu a saltar para cima de um banco, a enlaçares-te na corda passada em volta do candeeiro e a esfumares-te duma rua que nunca te olhou nos olhos.
Arrisco-me a dizer que a fatiota que levas para o esquife valerá mais do que o preço da tua alma. Mas é só uma opinião, não me leves a mal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

da fuga

“Dá-te ao trabalho de ignorar a tristeza dos teus”


Disse-o e saí, porta fora, sem demonstrar o mínimo gesto de arrependimento. O eco da porta ressoou pelas escadas até sorver os primeiros ruídos da rua. Depois, meio desorientado, com os ossos massacrados pela noite mal dormida, dirigi-me cambaleante para a paragem do metro, daí para a sala de espera da gare dos comboios, fixando o meu poiso ao balcão do bar da estação. Devo ter passado muitas horas em monólogo, de mim para mim, entre a voz da emoção e a voz da razão. Conclusões nenhumas, estaria ali o tempo necessário para decidir a minha vida.
Minuto após minuto, o empregado do balcão investia em tentativas sucessivas para que eu consumisse qualquer coisa.

“Por acaso não quer que lhe sirva uma água com gás, uma sandes para encher o estômago ou uma peça de fruta?”

“Ó homem, desapareça.”

Focava de novo a atenção nas mesas cada vez mais cheias de gente apressada e barulhenta e esquecia-se de mim.
Não sei quantas horas ali estive, alheio ao movimento dos passageiros, às movimentações de cargas e descargas das locomotivas. Adormeci.
Já noite, com o frio a tomar conta do corpo, despertei num repente, estendido sob o assento duro de plástico no resguardo da plataforma, com o Segurança à ilharga.

“Chefe, faça-se ao caminho que o seu destino não é aqui.”