terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

metáfora como ilusão

Que bonito seria para mim poder ver aquele casal de velhos de mão dada na Praça, sentados no banco de jardim, sem nada os perturbar. É certo que nem sempre estavam sóbrios, de cabeça limpa, bem vestidos e de banho tomado. Claro que não. Demasiadas vezes chegavam a cambalear, com vestes andrajosas e com um desmesurado cheiro a álcool que, Deus meu, só lhes saíam da boca pequenos murmúrios ditos sem o mínimo sentido. Ainda assim, continuava a ver nas suas expressões uma cumplicidade própria de quem conhece bem o outro sem ter de recorrer a discursos inesgotáveis ou a repetidas provas de amor. Companheiros de desgraça, infortúnio ou de vício, dirão alguns. Nada disso, aquela gente vivia o seu dia-a-dia com a única ideia de que para eles fazia sentido sobreviver. Fosse com uma cerveja ou um pacote de vinho tinto roubado no supermercado, fosse recolhendo as migalhas de pão com milho atiradas aos pombos, os infelizes partilhavam a alegria de um pequeno momento de glória.


Por ninguém ser eterno, um deles desapareceu, ela, para ser específico. De tantos tombos ao chão, de tanta bebida sorvida sem inclemência, o corpo desfez-se em pedaços ínfimos. Nos últimos meses de vida, dorida na degradação física, procurava nas urgências do hospital o caldo milagroso para a veia intacta que lhe devolvesse por mais um par de horas a clarividência necessária para encontrar o caminho de volta ao companheiro, o vinho ou à cerveja do mata-bicho, o impulso de encher o estômago com um farelo qualquer.



Por certo morreu acompanhada. De mão dada com quem sempre lhe escutou os lamentos ou as ambições (se é que as teve).

Ele agora está mais só.

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